13 de novembro de 2010

A IGNORÂNCIA DO PROGRESSO

Progresso é uma palavra perversa, porque traduz a capacidade que as coisas têm de mudar de estágios, tanto para o bem quanto para o mal. Uma “obra em progresso”, por exemplo, expressa a evolução de um trabalho literário no tempo na medida em que é produzido. Já uma cidade em progresso – devido à ausência de capacidade intelectual de quem as governa (e nem vou pedir desculpas pela generalização) – não leva em conta o conceito de Charles Baudelaire. Progresso, dizia o poeta francês, só existirá quando não houver mais nem um traço do que chamam “pecado original”. Mas talvez seja exigir demais a um político que ele tenha noção conceitual de que progresso não se traduz somente por areia, cimento e cal.
Outro dia, levei mais um dos vários sustos que o progresso encerra. Um dos prédios mais bonitos da cidade, raro exemplar da arquitetura modernista, foi literalmente tombado. O edifício Mussi, ali na rua Nereu Ramos, construído em 1957, era ostentado pelas colunas sinuosas e reveladoras de uma época. Os apartamentos ainda tinham pé direito alto, para não sufocar – ao contrário dos prédios construídos a partir dos anos de 1970 –, e não era alto demais, como convém a uma cidade que não pretende ser ignorante do ponto de vista urbano. Sua demolição é a prova mais cruel de que a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros está cada dia mais insuportavelmente feia do ponto de vista arquitetônico.
Para uma cidade que se pretende turística, demolir o passado é como matar a galinha dos ovos de ouro. Não sei onde estudaram estes construtores, mas é certo que não aprenderam que a destruição da memória é a gênese da barbárie, e que o progresso, sem a sua função poética, sem uma reflexão profunda sobre seu conceito, desemboca na violência. Aliás, já vivemos numa das cidades mais violentas do País. E aposto que o abandono da memória tem tudo a ver com isso. Sei que para os construtores isso não tem nada a ver, e que eles apenas vão rir da minha cara. Mas insisto na tese: não seria a permissão da destruição – por parte dos moradores e do poder público – uma demonstração de ignorância igual?

P.S. O texto acima foi enviada por e-mail pelo professor e arquiteto Luiz Eduardo Teixeira.

Diário Catarinense, 13 de novembro de 2010

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