20 de novembro de 2010

A morte do meu pai

Eu nunca tive pai, mas tive três. Do primeiro, o que chamam de “verdadeiro”, “de sangue”, conheço apenas as fotografias e seu túmulo, no qual seu nome se confunde duas vezes com o meu. Do jazigo, algumas lascas de tinta de prata deixam uma ponta para que eu a descasque. Está lá: “saudade da esposa e filho”, o que ele nunca conheceu, porque não olhou para os lados justamente na hora em que passava um automóvel. Morreu aos 28 anos, com sua mulher esperando, de oito meses, um garoto: eu, que nunca tive pai, mas tive três. Sobraram duas questões dessa pequena tragédia familiar: 1) Por que ele sempre parece mais velho que eu na fotografia? Por que ele tinha que morrer sem antes eu olhar bem nos seus olhos e chamá-lo de pai?

O segundo, o que olhei nos olhos, conheci quando eu já era um mocinho de 11 anos e andava sozinho pelas ruas de uma cidade grande. Apesar de não ser o pai “verdadeiro”, “de sangue”, não tive outra opção naquela pequena vida a não ser chamá-lo de pai. Afinal, todos tinham um, por que eu não poderia ter também? E tive, durante quase trinta anos. Sempre às turras, numa teimosia quase folclórica, convivemos, podemos dizer assim, numa harmonia possível, mas nem sempre harmônica. Mas o que esperar mais? Da relação desse pai com minha mãe, ganhei de presente três irmãos e uma irmã, que se fossem irmãos “inteiros”, e não “meio irmãos”, como dizem, talvez não houvesse tanto amor como o que há.

O terceiro, apesar de conhecê-lo desde antes do segundo, morreu na semana passada. Conta a história dessa pequena história que ele poderia ter sido – se o destino, ou qualquer coisa parecida com isso (porque, vá lá, eu não creio em destino) – meu “verdadeiro” pai, porque amou minha mãe a vida inteira, como ele fazia questão de dizer, e esperou ela ficar viúva duas vezes. Agora, três.

A história é mesmo engraçada, é o que posso dizer desse episódio de quase meio século, no qual eu nunca tive pai, mas tive três.

Diário Catarinense, 20 de novembro de 2010

12 comentários:

Miguel Sanches Neto disse...

Caro Brüggemann

Bela crônica sobre a falsa orfandade, que é a mais verdadeira de todas. Tive apenas dois pais. Esse negócio de ser filho de morto é sempre muito impactante.
Abraço do
Miguel Sanches Neto

rebecca disse...

é quem sabe nessa estrada eu ainda saiba do que vc está falando sobre vários pais! Mas, por enquanto o que fica são muitas saudades de um pai que decidiu ir embora...!

Neide disse...

Diante dessa, belíssima, história de sua vida, Fabinho, só digo uma coisa: viva a Dna. Rosa !!!!!!!!

Fabiana Lazzari disse...

história impactante mas lindaa!

loli disse...

chorei!!!

Nira Pomar disse...

Lindo texto, linda história!!
Beijo!!

Colafina disse...

Bom. Muito bom, mesmo!

Anônimo disse...

Lindo texto, Fábio, e que fiquem as boas lembranças dos seus 3 pais. Abraço, Ricardo Limas

Anônimo disse...

Acho que eu também posso me considerar um quase "trifilho" apesar de eu não ter nada a ver com o teu primeiro pai, tirando o fato de ele ter me dado um irmão mais velho, quase que um pai também.
Abraço do Zé.

beto tavares disse...

quase cedeu né, dizendo, sem querer faze-lo, que não cre no destino; mas que ele, o destino existe, isto é fato. quiz o destino, presentea-lo com 3 pais, mesmo que não tenha tido nenhum. será que não os teve mesmo? penso que eles, o tiveram!

Anônimo disse...

Oi menino rebelde que cresceu demais, com ou sem pai você cresceu e, é um dos homens mais belos por inteiro que conheço.
Bjoss.

Juan PLC Salazar disse...

Que bom que você compartilhou isso. Um abraço.