4 de julho de 2011

DOS DIREITOS DE IR E VIR

  • Seminários, congressos, debates e artigos têm refletido, com maior ou menor profundidade, um dilema das cidades maiores: até quando o “poder” andar de automóvel pode se sobrepor ao “direito” de ir e vir da maioria? Quase sempre, chega-se à conclusão de que não há mais sentido o uso intensivo de veículos pessoais nos grandes centros. Uma pesquisa empírica feita em plena Avenida Paulista, em São Paulo, planejou uma espécie de corrida maluca entre um carro e um pedestre. Ambos percorreram todo o seu trajeto num horário crítico, e o automóvel chegou apenas cinco minutos antes do pedestre.

    Na Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, onde a população é devota de “Santo Automóvel”, já é quase desumana a dificuldade de mobilidade urbana. E todos os especialistas são unânimes em apontar como causa principal dessa insanidade dois fatores: essa “cultura do automóvel” por parte de uma classe média que acha feio andar de ônibus e a falta de sensibilidade do poder público (ou seria falta de vontade política?) em tratar o tema com inteligência.

    Em média, os veículos particulares ocupam 58% do espaço das ruas para levar apenas 20% dos cidadãos. Já os ônibus transportam mais de 68% das pessoas, ocupando apenas 24% do espaço. Se todos sabem que se não houver investimento em transporte público a situação ficará cada vez pior, por que então vereadores, prefeito, construtores e uma parcela enorme da classe média ainda acham que é duplicando e fazendo túneis e viadutos que haverá fluxo tranquilo? Se não abandonarmos a ideia de que apenas o automóvel pode nos levar de um lugar a outro, deixaremos de ser uma “metrópole” para ser uma “necrópole”, porque estaremos nos matando aos poucos e de forma violenta.

    Uma das tarifas de táxis mais caras que já conheci é a da Ilha dos Aterros. Conversei outro dia com um taxista. Disse a ele que o valor quase surreal do táxi ilhéu devia-se à quantidade irrisória deles nas ruas. O motorista respondeu que para eles é bom. Novamente a lógica de uma minoria sobrepujando o interesse coletivo. Depois, descobriu-se que quase toda a frota, que é mínima, se comparada a cidades como Curitiba, Nova York ou São Paulo, pertencia, com anuência do poder público, a um único sujeito.

    É emblemático o número de adesivos que circulam na Ilha, principalmente no Sul, anunciando que “se não duplicar vai parar”. Trata-se de uma lógica pequeno-burguesa. Se desse certo, São Paulo não teria metade dos problemas que tem. O que não fez ainda São Paulo parar é o metrô.

    Faz muito tempo que nas cidades onde a formação da classe média é melhor a maioria usa muito mais o transporte público. O sensato não é duplicar ou fazer mais viadutos, mas prover a cidade de transporte público de qualidade, rápido, eficiente e, de preferência, gratuito. Somente deste modo todos poderão exercer com plenitude seu direito de ir e vir.




  • O grande nó

    Nos debates sobre mobilidade urbana, soluções como ciclovias, integração e uso de transporte marítimo são sempre lembradas. Porém, pouca gente toca no ponto mais fundamental, principalmente na capital catarinense:o direito de ir e vir de milhares de pessoas está estancado nas mãos de poucos empresários. O grande nó, dizem os empresários, é que, se aumentar a oferta de ônibus e horários (e o táxi usa a mesma ideia), os veículos levarão poucas pessoas e a empresa não terá lucro.

    Se é assim, resta uma pergunta que deve ser respondida pelo poder público e por parte da população que acredita nessa falácia: se a empresa não pode ter prejuízo, a população (acidentes, lentidão, poluição) pode? Quanto mais houver ônibus, táxis, micro-ônibus, trens, metrôs ou barcos disponíveis, mais pessoas deixarão seus automóveis em casa. Se tem pouca gente esperando ônibus nos pontos é porque a fama do serviço (que basta usar para comprovar) é muito ruim. Quem não pode ter prejuízo são os usuários (milhares) e não apenas alguns empresários.

    Além do mais, o transporte público, tanto ônibus quanto táxis, é uma concessão pública. Ou seja, é o Estado que regula e permite. Pergunto: por que o Estado, ou seja, nós, contribuintes, temos de sustentar o lucro dos empresários. Por que o Estado não encampa o serviço? Se a sociedade quer e precisa de transporte público, nada mais sensato do que municipalizar o serviço. Mas para isso é preciso mudar a cultura geral da classe média, educá-la politicamente para que não caia no discurso de que o empresário “pode” lucrar, mesmo às custas do desconforto da maioria.

  •  Diário Catarinense, 2 de julho de 2011
  • 6 comentários:

    Osvaldo Pomar disse...

    concordo.
    parece que concentrou num único texto todos os tópicos de que venho discutindo nas ruas com as pessoas, desde que começaram a operação de "enfeiar mais o Rio Tavares" para caberem mais uns duzentos outrezentos carros!!!
    valeu, Fábio!

    Marcelo Esteves disse...

    O mais curioso, é que o brasileiro volta da Europa encantado com o transporte público, em especial o metrô, e depois volta pro Brasil e acha que andar de ônibus é "feio"! O governo faz que se preocupa com o aquecimento global, mas ele próprio faz qualquer coisa pra ajudar as montadoras de carros a vender mais. Muitas pessoas ficam estupefactas porque eu continuo andando de ônibus se posso comprar um carro! Quando digo que não quero comprar um carro, elas me olham com certo ar de "coitado, ele não sabe o que fala". Resignei... Obrigado pelo texto, Fábio. Me senti menos sozinho.

    Tania disse...

    Oi Fabinho, agora que estou vivendo na europa (espanha) posso falar com mais propriedade sobre isso. Bem, concordo plenamente com a necessidade de mudar a cultura geral da classe média em relação aos transportes públicos. Também com o comentário de Marcelo Esteves quando diz que o brasileiro volta da europa encantado com as facilidades que encontra aqui para circular, mas volta com a mentalidade de que andar de ônibus é coisa feia. Bem, não faz tanto tempo que iniciei minha jornada de automóvel em Floripa, sendo forçada a comprar um, pois não aguentava mais me submeter aos horários escassos dos ônibus que fazem o trajeto de minha casa ao trabalho. Aqui em Barcelona não sinto a menor falta de carro, tenho a disposição um sistema incrível de metro e ônibus a hora que quiser, pertinho de casa seja o percurso que escolher. São várias as razões que não vou elencar neste pequeno texto, entretanto, uma delas é que o ayuntamiento (prefeitura), mesmo de direita, se preocupa sobremaneira em resolver o problema de transporte público. Aqui as manifestações são intensas quando ocorrem, vocês devem estar vendo no Brasil. E isto tem sim repercussão para garantir que os equipamentos públicos sejam distribuídos democraticamente à população, inclusive os jovens têm ocupado as árvores da plaza da Catalunia como forma de moradia, até camas eles colocaram. Claro no momento já foram retiradas, mas simbologicamente isso demanda força, pedem liberdade para todos, não apenas para uma categoria, ocupam os espaços públicos para demonstrar que as ruas e plazas são do povo!!! Gostei muito de seu texto e de compartilhar para este debate. Grande beijo. Tania Raitz

    Barattolo di Gatti disse...

    Olá Fábio.
    No próximo sábado, dia 9, às 19:30, estará apresentando na UDESC (laboratório 1 do CEART) um espetáculo com a mesma temática desenvolvida por você em seu artigo, inclusive falando do trânsito de uma certa ilha paradisíaca... A peça se chama "pequenas histórias de uma cidade" e sinta-se convidado. Lembrando apenas que, como é prova pública e grátis, precisa chegar mais cedo para retirar a senha. O espetáculo dura meia hora e você pode aproveitar e continuar a noitada assistindo "Beatriz", às 20:30, ao lado, no espaço 1. Esse segundo espetáculo é baseado em escritos de Chico Buarque e ficou muito lindo, com uma interpretação impecável da maravilhosa atriz Margarida Baird. Dobradinha certa para o sábado a noite, conferir os trabalhos dos alunos de direção 1. Eles me surpreenderam!

    Lengo D'Noronha disse...

    Pois é, Fábio.
    Afinal o 'monstro', cognome de Poder, é e deve gerido por pessoas que delegamos o tal. Através de impostos e do voto. Porém tudo contribui para ser exercido da forma mais sórdida e egoista. A começar pelo voto, pois dos impostos não há como.
    Sinto que a resignação e a informação real de como deve ser feita a partilha da economia está ficando cada vez mais longe do cidadão.
    Tô quase desistindo.
    Abraço.

    Juan PLC Salazar disse...

    Parabéns pelo texto!

    Hoje para circular com tranquilidade em Florianópolis você tem que escolher a dedo os horários e por onde vai transitar.

    Talvez uma etapa inicial seja a de criar corredores EXCLUSIVOS para ônibus, em todas as grande vias, com multas fantásticas para quem se aventurar a pegar o atalho. Assim, o sujeito que está amargando horas no trânsito vai começar a contemplar a viagem de ônibus quando ver que está parado e o ônibus passa desimpedido por ele.

    O transporte tem que ser muito mais barato do que é. Os preços praticados hoje são ridículos.

    Chega de obra! Isso não resolve. É burrice. Mas dá dinheiro, para alguns.

    Enquanto não for atrativo andar de ônibus, quem pode vai evitar.

    Enfim, as soluções existem e os exemplos também. Agora fazer isso acontecer passa pelo jogo mesquinho da política e dos interesses de pequenos grupos com muito dinheiro. Ou seja, as perspectivas não são muito boas.