19 de novembro de 2011

  • Pelo fim do vestibular

    A Constituição brasileira, em seu Capítulo III, na sua Primeira Seção, no artigo 205, descreve de forma clara que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, e será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. O artigo 206 preconiza ainda que o ensino terá como princípios a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, e – importantíssimo – a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais. Partindo destes princípios, e de que a mesma Carta garante que “todos são iguais perante a lei”, a existência de jovens fora da escola – ou que tenham que pagar para estudar – nada mais é do que um crime praticado pelos próprios governos, porque não cumprem a Constituição Federal.

    Só existe vestibular porque não há vagas nas escolas públicas. Se o país investisse mais em escolas do que em viadutos, mais em salários aos professores e em qualificação dos mesmos do que em absurdos salários a deputados, vereadores, juízes e suas gordas aposentadorias, com certeza não haveria necessidade de disputa por vagas.

    Se um jovem brasileiro quer estudar teatro, por exemplo, ele precisa, ao concluir o curso médio, saber fórmulas matemáticas às quais ele nunca mais usará, e composições químicas que não servirão para sua vida profissional. Mas ele pode ter estudado por conta própria a história do teatro, ou ter talento para a arte e querer apenas aprofundar seus conhecimentos. Em um país sério e preocupado com a educação de seu povo, o Estado teria uma vaga numa escola pública de qualidade para ele, desde que se mostrasse com vontade para tal.

    Conheci muitos jovens que queriam ser médicos, mas não tiveram boa formação nas suas escolas, públicas ou privadas. Por conta disso, não conseguiram passar no vestibular, mas leram tanto sobre medicina que seriam capazes de, pelo menos, se houvesse vaga, iniciar seus estudos. Na escola é que ele poderia ser testado, com questionamentos específicos sobre a profissão. Do mesmo modo, conheci profissionais que se tornaram médicos apenas porque pagaram caro por um cursinho pré-vestibular (uma verdadeira aberração educacional), que mais ensina truques do que conhecimento. Alguns dos truques consistem em usar, nos dias das provas, a camiseta do cursinho mais caro, para intimidar psicologicamente os que não puderam pagar pelos mesmos. Isso dito por um dos professores desses tais cursinhos, que só existem porque os governos não cumprem a Constituição e não abrem vagas nas universidades para que todos possam estudar.

    Muitas outras questões aparecem por causa dos vestibulares. A mais difícil de lidar e que gera debates a priori desnecessários e, por vezes, constrangedores, é o sistema de cotas. Não haveria necessidade de cotas se houvesse acesso direto aos cursos e vagas para todos. As cotas ainda geram uma cegueira coletiva, a favor ou contra, que impede os debatedores de ver que o problema não está no mérito, na cor ou na procedência do aluno, mas sim no descumprimento de uma lei por parte do próprio governo.

    Só há uma solução: a classe média deixar de ser estúpida e começar a exercer seus direitos, cobrando dos governos a abertura imediata de vagas para todos. Ao entrar nos cursos é que o estudante tomaria consciência de sua vocação ou não, de sua competência ou não, seja para ser médico, ator, químico ou crítico de cinema.

  • Novembrada Cultural

    O movimento Novembrada Cultural é um exemplo de que a política pode se dar em uma instância democrática. Quem faz música, cinema, literatura, dança, teatro, arquitetura são seus profissionais. E a população paga impostos para que o Estado invista e incentive a cultura. Governos que querem fazer cultura sempre são fascistas, porque não é papel dos governos atribuir grau de valor à cultura. Por isso existe o Estado, que deve ser protegido inclusive dos governos. Há quase duas décadas os artistas catarinenses exigem um fundo que seja democrático (sem verbas para os governos), gerido pelo Estado (não pelo governo de plantão), o que implica uma legislação clara, justa e democrática, que lance editais de apoio à cultura e que, principalmente, tenha uma Secretaria de Cultura.

    É inadmissível que um Estado considerado tão rico e tão diverso culturalmente tenha que lidar com três instâncias díspares como o esporte, o turismo e a cultura. Todos, repito, todos sabem e querem isso. Se a democracia fosse representativa de verdade, há 20 anos já teríamos uma Secretaria de Cultura, e seus profissionais seriam pessoas ligadas à área, e não alheias às necessidades básicas dos artistas e produtores que precisam do apoio do Estado.

    Mais que isso, o Estado é que precisa que seus artistas existam, porque é possível um mundo sem viadutos, porém, não conheço uma nação que não precise de pensadores, músicos, escritores. Todos já ouviram falar em Cruz e Sousa e lembram de um outro verso, mas alguém lembra do nome do governo de sua época?

    publicado originalmente aqui
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