11 de fevereiro de 2012

  • Crescer e multiplicar

    O amor, por mais abstrato que possa ser, pelos vários entendimentos que se tem dele (e por isso é abstrato), é anterior ao desejo sexual. O primeiro sentimento, a que chamamos de amor, que qualquer humano tem por outro é assexuado. Ele só passa a ter conotação sexual quando machos e fêmeas da espécie humana já são crescidinhos. E se concordamos com isso, fica implícita a ideia de que todo amor é bissexual, porque amamos pai e mãe indistintivamente de seus gêneros, por mais que culturalmente eles nos remetam a afirmações, relações, obediência, educações, e anseios diferentes.

    Sendo assim, tanto o que nos move do ponto de vista biológico, ou mais especificamente naturalista, – que sou bem mais Darwin que Freud – quanto do religioso (e falo aqui da religião na qual fui educado e posteriormente deseducado, a Católica), é o lema “crescer e multiplicar”. A diferença é que em algum momento da história (e alguns teólogos atribuem a Paulo de Tarso) a Igreja Católica apartou-se da biologia. Propôs uma cultura assexuada, que vai contra ao próprio enunciado, impresso aliás no livro do Gênesis, belissimamente ilustrado pelo cartunista norte-americano Robert Crumb.

    Crumb, apesar das críticas de alguns católicos, não fez nada mais do que ilustrar ao pé da letra o Gênesis. Quem esperava que o pai do gato Fritz fosse fazer uma adaptação sacana frustrou-se, porque ele não alterou nada, pelo contrário, elucidou o Livro da Criação, mostrando que o texto é uma das mais belas teogonias, e que nada tem de sagrado, e que trata-se de apenas uma visão judaica da criação da ideia de Deus, da Terra e da espécie humana, assim como existem centenas de teogonias na história da humanidade. Muitas delas, infelizmente, não ficaram para a história, seja porque os povos que a conceberam eram ágrafos, seja porque foram engolidas por imposição da religião dominante, que se achava a única dona da verdade e que até hoje é contra os “relativismos”.

    Em algum momento, o catolicismo, que em tese deveria se preocupar com “as almas”, passou a se preocupar com o corpo, como se a salvação do que chamam de “alma” só poderia passar pelo “corpo”. Quem leu o Gênesis sabe que o amor não era necessariamente monogâmico “naqueles tempos”, e que muitas vezes a sacanagem rolava solta, com fratricídios, parricídios, onanismo (Onã, inclusive, é personagem do livro), traições, assassinatos e orgias.

    O grande problema é que a maioria dos que se dizem religiosos nunca leu a Bíblia, apenas a ouviu através da versão dominical dos padres. Do mesmo modo, já ouvi leituras quase criminosas de pastores evangélicos dando conotação bem distinta e de acordo com sua própria vontade política, econômica (afinal, “templo é dinheiro”, porque não precisa pagar imposto) e ideológica. Mas raramente teológica.

    No livro do Gênesis, o “crescer e multiplicar” não está ligado à monogamia e nem mesmo ao casamento. Alguém no meio do caminho desvirtuou o assunto. E o que é pior, “amedrontou” o desejo e o sexo, atribuindo-lhes uma “sujeira” e um “pecado” que estão mais na cabeça de quem os proíbem do que na beleza transcendental do ato.
  • Sexo e mentira

    Minha educação não me permitia questionamentos. Sexo era pecado e ponto final. Não havia exceção, como aprendi mais tarde através da frase “com fins procriativos”. Morando no interior, sem nenhuma contra-informação ou livro à disposição e estudando em uma escola pública em plena ditadura militar, como justificar o desejo humano, demasiadamente humano e natural a qualquer adolescente? Só fui saber na adolescência que eu havia nascido porque meus pais fizeram algo que até então era tido como “proibido”.

    Sei que hoje a educação sexual é bem mais arejada e tolerante do que aquela que eu tive. Talvez por isso a Igreja Católica tenha perdido tantos fiéis, porque esse medo do sexo que ela mete em seus crentes é completamente incompatível com a realidade do desejo, que é muito mais pulsante e incontrolável do que a Igreja pode impor. E isso, a própria Igreja sente na pele, nos tantos e tantos casos de padres que não conseguem controlar algo que não tem que ser controlado, e de que ninguém deve ter medo.

    Cuidar-se, sim. Amar monogamicamente, por que não? Mas essa conversa de sexo apenas para procriar é conto da carochinha, e está mais do que na hora de perdermos esse medo histórico, e por que não dizer histérico, do sexo, e tratá-lo com a naturalidade que ele merece, sem tabus. É tão discrepante essa relação, que a maioria da população ainda fica chocada ao ver dois homens se beijando, mas acha normal ver dois homens se matando ou lutando. O que forma tarados e estúpidos é a proibição, não o sexo em si. Afinal, “crescei e multiplicai-vos” diz o genial Livro da Criação.

    Publicado originalmente no Diário Catarinense.

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse texto é belo como um peixe verde sem cio.

o
de perla

karl

ranzinzatudo disse...

O gênesis até pode ajudar no caso do sexo isoladamente, mas quando colocamos as outras relações/ensinamentos que são de dominação (homem sobre a mulher, humanos sobre animais e a natureza) aí fode tudo.

Essa é a base, pois sem isso nem haveria a autoridade católica castrando todo tipo de comportamento livre.

Abraço