26 de agosto de 2012

LAGES: UM RETRATO NA PAREDE


          Nasci e vivi por muito tempo em uma casa de madeira de um bairro periférico, mas de nome sacro e pomposo (Sagrado Coração de Jesus) de uma cidade hoje periférica (Lages). Minha avó expunha na parede da velha casa duas imagens fortes e instigantes. Uma delas era uma espécie de salvo conduto para o céu, algo como um diploma que lhe conferia regalias celestiais pelos bons serviços prestados à Igreja Católica, da qual era fiel devota. A outra, talvez pelo nome do bairro, um quadro de um Cristo com um coração exposto e sangrando. No quarto em que nasci e vivi até a adolescência, havia outro quadro, este quase diáfano, apesar de materialidade da moldura, do vidro e do papel, no qual uma imagem de um anjo, de asas enormes, cuidava, quase como no filme “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, de um incauto garoto à beira de um rio para que ele não caísse. Escrevi “hoje”, poucas linhas acima, porque em algum momento da história, entre os anos de 1940 e fim dos de 1960, a cidade foi política e culturalmente bem mais importante do que é hoje. Essa importância datada tem muito a ver com a derrubada de milhares de araucárias e de outras espécies de árvores não menos importantes. Um de seus poetas, Raul Arruda Filho, escreveu um poema oswaldiano que é reflexo disso, que diz: “pinheiro / dinheiro”.

         Essa riqueza, nunca distribuída, sempre acumulada, era investida na “cidade”. Escrevo entre aspas porque no núcleo urbano do município, por esta época, vivia apenas pouco menos de 20% da população. O restante vivia nas fazendas e de vez em quando frequentava a “cidade”. O mais curioso disso tudo é que o lageano de posse viajava bastante. Nestas excursões, fotografava o patrimônio arquitetônico dos lugares e, quando construía sua casa, tentava reproduzir aquilo que via. O centro urbano da cidade constituído nessa época foi substituído, em nome do “progresso”, por uma arquitetura moderna, na qual predominava o “art déco”. Ainda que não seja considerado por muitos arquitetos como sendo um estilo, é peculiar nos detalhes. O novo rico lageano destruiu o patrimônio “colonial” (devem restar hoje não mais do que meia dúzia de exemplares), mas, por sorte e talvez ingenuidade, construiu outro, o “moderno”. O centro histórico de Lages, até o fim dos anos de 1980, era predominantemente modernista. Hoje, apesar dos desgastes e da poluição visual absurda, a cidade tem, escondida atrás das placas e dos anúncios cafonas, um patrimônio razoável desta época, ainda que mal cuidado.


Colégio Aristiliano Ramos. Na terceira janela, da esquerda para a direita, do piso inferior,
cursei o primeiro ano do primário, em 1970.
        Um dos edifícios centrais da cidade é o “Colégio Aristiliano Ramos”, onde cursei boa parte da vida escolar primária. O desprezo por tão importante patrimônio, nos últimos anos, promovido por uma administração estadual (o prédio pertence ao Estado) obtusa no que se refere à história e à cultura, fez a coisa mais insensata e de cunho fascista (é marca do fascismo a uniformização das pessoas e do patrimônio) que já vi na vida: pintou de vermelho e verde uma edificação que foi concebida pelo seu arquiteto para ser branca. A ignorância não tem medida, mesmo.

          Esse tipo de desleixo, apesar de começo tão promissor, pois Lages possuía um plano diretor que “orientava” inclusive a construção de linhas arredondas nas esquinas, como se vê em muitas cidades europeias e nas capitais mais antigas do País, entre outras novidades. Havia uma praça, no lugar onde hoje é um enorme terminal de ônibus, ao lado do antigo mercado público (o atual, também abandonado, tem estilo “art déco”), que faria inveja a qualquer paisagista.

         Em meados da década de 80 do século passado, a casa onde nasci — citada no começo dessa prosa e que passou por todo tipo de reforma, desde o chão batido na cozinha, as portas de tramelas, até o forno externo de tijolos no qual minha avó fazia muitos pães para alimentar os 11 filhos criados, netos e agregados, de onde saíam enormes broas de polvilho — foi ao chão. Com ela, não sem um choro convulsivo no meio da rua, do qual nunca morri de vergonha, foram juntas todas as reminiscências de uma infância de labirintos, questionamentos, aventuras e segredos.

        Antes disso, em um sobrado enorme de alvenaria, bem no centro da cidade, vivi um pedaço da infância, entre os 3 e os 8 anos talvez. Era um prédio construído nessa época de riqueza, com pé direito alto, muitos quartos, janelas de madeira e do mesmo modo cheio de segredos. Passei muito tempo da minha vida adulta prometendo um dia bater àquela porta, e pedir permissão para o atual dono para que me deixasse revisitar a infância. Eu sei que a casa pareceria minúscula, porque as coisas diminuem na medida em que a gente cresce. Nunca fiz isso. Quando criei coragem, ela havia sido toda transformada e não guarda mais nada do que era, nem mesmo sua fachada.

         Estas reminiscências me veem agora porque talvez seja o único modo de justificar meu apreço pela proteção incondicional dos acervos históricos, culturais e arquitetônicos. Porque, mesmo para quem apenas passa na frente todos os dias de uma casa antiga, como a admiração que tenho pelas duas casas art déco diante da praça dos Bombeiros, aqui na Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, por exemplo, é um modo de reter e compreender a história, principalmente para que ninguém cometa erros no presente alegando que não sabia da existência deles no passado.

       Lages, hoje, para imitar Carlos Drummond de Andrade, é apenas um retrato na parede, mas como dói.

Um comentário:

Colafina disse...

Compartilho essa dor... :(