5 de janeiro de 2013

REVOLUÇÕES SILENCIOSAS



Durante 2012, pensei em questões que me pareciam ser importantes para desenvolver neste espaço chamado, não por menos, “Penso”. Por conta de assuntos emergentes, quase sempre críticos em relação a mandos e desmandos do poderes públicos, notadamente os mais próximos: municipal e estadual, não levei adiante tais reflexões e elas tornaram-se meras notas para futuro desenvolvimento. Acreditei agora, relendo-as, que poderia compartilhar (palavra tão da moda no ano que passou) com o leitor aquelas que ficaram apenas no âmbito da investigação, sem resolução, apenas perguntas, sem respostas. Seguem, portanto:

A teoria precede a experiência
Parece paradoxal, mas acredito na tese de que a teoria precede a experiência. Ao contrário do que a maioria crê, de que só é possível teorizar sobre algo com o qual primeiro vivenciamos, penso que a experiência só se denomina como tal se soubermos a priori sobre o que estamos vivenciando. 

O mundo como vontade e representação
O mundo, de acordo com apenas uma das máximas do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788 - 1860) acaba individualmente, todos os dias, para aqueles que morrem (o mundo como representação). Só existe “mundo” para quem conhece a palavra “mundo”, e não para os que “apenas” vivem nele. Viver não é necessariamente estar. O mundo, tal e qual concebemos, cada qual com suas crenças e descrenças, não acabou e não vai acabar. O que acontecem são modificações no modo de viver em comunidade. Estas mudanças têm a ver com as experiências. Mas como experimentar sem teorizar antes? Como crer que uma experiência pode ser boa ou ruim ou mesmo inócua? A crença em uma experiência futura (ainda não concretizada, apenas pensada) utiliza-se do mesmo mecanismo mental que gera a crença em qualquer coisa além da física. A crença em uma experiência ou em Deus tem a mesma raiz.

Fotografia e fotografia digital
Não entendo por que as pessoas chamam a velha fotografia com rolos de negativo de “fotografia analógica”. O termo foi roubado (imagino que por paronomia) da “telefonia analógica”, antecessora da “telefonia digital”. Para a transmissão de dados o termo “analógico” faz sentido, porque as informações transmitidas eram convertidos em qualquer ordem de grandeza (sons variáveis: altos e baixos), enquanto que no “telefone digital” os dados são sempre binários. Ao contrário da fotografia, a captação de uma imagem para um negativo não é feita por um dispositivo analógico, mas por um processo físico/químico. O ideal seria usarmos apenas a diferenciação para a fotografia digital — porque não faz sentido um sistema agregar um nome (no caso analógico)  apenas porque uma nova tecnologia (no caso a digital) foi criada — e mantermos o termo “fotografia”, sem complemento, para a velha e boa câmara de filme (e não câmera como se usa comumente), como sempre foi.

O tempo
Quando eu era piá, em Lages, os adultos se queixavam que a passagem do tempo era cada vez mais rápida na medida em que a idade avançava. Eu ficava imaginando que para meu avô, por exemplo, o tempo entre uma “dormida” e outra era menor do que o meu. Mas não entendia como o tempo podia passar mais rápido para ele e menos lento para mim se estávamos no mesmo instante no mesmo lugar. Com que velocidade o tempo deveria se comportar diante de um menino de 10 anos e de um homem de 60? Essa foi minha primeira questão filosófica séria.  Como diz meu amigo Iur Gomes, no ano passado, por esta época ainda era março.

ALÉM DO MAIS...

DO MÉXICO À ISLÂNDIA
Na semana que passou, cerca de doze mil zapatistas, grupo mexicano seguidor do revolucionário Emiliano Zapata, marcharam em silêncio em três cidades para lembrar o massacre de Acteal, quando 45 indígenas foram assassinados dentro de uma igreja, no dia 22 de dezembro de 1997, no Estado de Chiapas. Com roupas pretas e os rostos cobertos, vestindo preto e vermelho, os manifestantes diziam: “Senhor presidente, se o senhor não mostra sua verdadeira cara, não mostrarei a minha”.

E na Islândia, ao contrário dos governos que – mesmo se dizendo capitalistas – distribuíram bilhões de euros dos cidadãos para salvar bancos da bancarrota, o povo decidiu deixar os capitalistas falirem. Mais ainda, também em silêncio, criaram uma nova constituição em assembleias populares, estatizaram os bancos e decidiram democrativamente como usar o dinheiro dos impostos. O economista, prêmio Nobel, Paul Krugman, escreveu sem meias palavras no New York Times: “Enquanto os demais países resgataram banqueiros e fizeram o povo pagar o preço, a Islândia deixou que os bancos quebrassem e expandiu sua rede de proteção social”. Quem sabe não podemos também fazermos nossa revolução silenciosa? Meios não nos faltam. 
É isso. Um 2013 bem melhor do que 2012 para os que leram até este ponto final.



Publicado no Diário Catarinense, 5 de janeiro de 2012

Um comentário:

Nícolas David disse...

É a primeira vez que visito seu blog. Por que usa o termo blogue?

Obrigado!