8 de outubro de 2007

Pedágio e outras cobranças incabíveis

Para justificar minha ojeriza absoluta aos pedágios, quaisquer que sejam, terei que, antes, explicar minha talvez idiossincrática visão sobre o papel do Estado na vida de cada um de nós. Como ainda uma minoria da população - apesar das insistentes investidas sobre esse assunto nessa crônica coluna - crê que o Estado pode tudo, não compreendendo que ele nada mais é do que um grande condomínio onde quem dá as cartas é a maioria, vivemos essa espécie de endeusamento do poder, e mais, numa bajulação aos governos, como se eles durassem para sempre.

Insisto sobre a durabilidade do Estado acima da efemeridade dos governos. Mas para isso, é preciso que os cidadãos tenham consciência de que para que o Estado subsista aos governos, é preciso primeiro saber que tipo de relação cada cidadão quer ter com o outro. Sem isso, a vida em sociedade se transforma nessa mesquinharia, onde não há planejamento, porque cada um pensa que terá sua última chance de tirar uma casquinha da grande máquina, riquíssima, porém sempre mal administrada (por causa dos governos de circunstância), chamada Estado.

Portanto, toda e qualquer posição sobre que tipo de Estado queremos só pode funcionar se for ideológica, apartidária (até porque os partidos brasileiros já perderam suas identidades e suas plataformas faz tempo), ou, no resumo da ópera, pensada não de forma circunstancial, mas sim com vistas à formação de uma nação, como são, por exemplo, a despeito de gostarmos ou não, os Estados Unidos. Lá, o Estado é sempre mais importante que os governos. Se a liberdade de expressão, por exemplo, é assunto constitucional, não há governo que a derrube, apesar de querer muito, como o de George Bush.

Sobre a cobrança dos pedágios, por exemplo, já ouvi gente dizer que, pelo fato de o Estado não ter dinheiro, a "única solução" é passar pra iniciativa privada. Mas isso só leva ao enfraquecimento não apenas institucional do Estado, mas da obrigação que os governos têm de investir essencialmente naquilo para o qual foram eleitos. Além do mais, é uma falácia essa história de não ter dinheiro. Pelo contrário, o Estado brasileiro é riquíssimo, tanto um deputado se dá ao luxo de receber por mês um salário imoral para o restante da população. Isso é pobreza? Existem milhões de pensões imorais sendo pagas, invertendo toda lógica da vida em sociedade, que deveria ser: quem tem mais distribui para quem tem menos. Mas no Brasil, os pobres pagaram impostos compulsórios, ICMs, IR, IPI, IPMF, etc., etc. para alimentar as gordas pensões, os antiéticos salários, para gastar com obras que nunca se concretizam, e com coisas que sequer imaginamos, porque nesse enorme condomínio chamado Brasil, ninguém presta contas, até porque não há quem as cobre.

Portanto, quem se posiciona a favor dos pedágios ignora sua condição de cidadão, e ainda por cima apóia vários crimes, a começar pela bitributação (já existem outras taxas sobre os automóveis: IPVA, Licenciamento, Seguro Obrigatório, etc.), porque é seqüestro (afinal, alguém te extorque para você ser libertado), e porque é omissão. Além do mais, existe dinheiro, sim, para manutenção de estradas. O que falta é vontade política dos governos para investir naquilo para o qual o Estado existe: saúde, educação, segurança pública, cultura, justiça e também na manutenção de sua estrutura viária.

A continuarmos assim, com essa omissão total dos Estados na nossa vida, delegando toda função coletiva à iniciativa privada, não haverá sentido algum pagarmos impostos. Seria bem mais inteligente reunir a comunidade, fazer "uma vaquinha", e cuidar pessoalmente daquilo que pagamos ao Estado para que faça por nós.

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