6 de março de 2010

Animais políticos

A ausência de uma formação histórica consistente é o que provoca a apatia política. Se bem que é uma suposta apatia, porque toda vez que um cidadão diz que não gosta de política, ou que não se interessa por ela, está querendo dizer que não gosta de si mesmo. Aristóteles, há mais de 2.300 anos, escreveu que somos animais políticos. Se concordarmos com ele, significa que não há como escapar dela ou de si mesmo. Das nossas ideias, passando pelo nosso discurso, até nossos atos, e o modo como fazemos um se transformar no outro, tudo é política. A falta desse conhecimento de si mesmo e do significado de política é a responsável pela eleição e manutenção no poder de cidadãos cada vez mais babacas e corruptos.

Digo cidadão, porque ao chamar o vereador, o prefeito ou o deputado de político, estou tirando de mim mesmo a condição de político que não se pode tirar, se mantivermos ainda a máxima aristoteliana. Estes caras todos que ocupam os poderes estão pelo voto. Antes de serem políticos como nós todos, têm outras profissões. Estão ali provisoriamente, porque pela mesma falta de formação, de educação, de conhecimento histórico, uma maioria de 50% mais um assim o quis.

Ausentar-se do debate, opinar sem conhecimento histórico, não levar em conta as nuanças da situação, não sequer ter lido um livro na vida não faz um cidadão ser melhor do que outro. A qualidade de uma democracia é proporcional à qualidade da educação de um povo. Se existem representantes imbecis no poder público, me parece óbvio, segundo essa lógica, que somos igualmente imbecis.

Por isso, sou contra o voto obrigatório. Aliás, sou contra qualquer tipo de obrigação, porque política é também desejo. A negação da política continua sendo um ato político, e é natural que se permita a sua própria negação dentro das regras democráticas.

Apenas com uma altíssima formação, com profundo conhecimento histórico é que será possível, um dia, termos representantes com espírito público. Enquanto isso, nos contentamos com o que somos: um país de semianalfabetos políticos, que mal sabe que não há como fugir da política. Basta acordar, abrir os olhos e dizer “bom dia”, que os animais que somos estaremos fazendo política. Ter essa consciência é o primeiro passo para expulsar os babacas do poder.

3 comentários:

Christiano Scheiner disse...

mais uma vez concordo com suas palavras e nos torna lúcidos, de fato, uma crônica da lucidez desses nossos tempos que atravessamos o milênio e continuamos bem mais animais que políticos...

Anônimo disse...

E o PUM? Não vai sair?

Anônimo disse...

"Se existem representantes imbecis no poder público, me parece óbvio, segundo essa lógica, que somos igualmente imbecis".

esta frase deve ter sido inspirada na camera de vereadores de Lages.

Beto Tavares