11 de fevereiro de 2011

Idiossincrasias

Tenho certa irritação com moscas e o hábito de só ir ao banheiro se tiver algo para ler. Tomo chá de alho com limão e mel para que todas as crueldades saiam com aquilo que os especialistas chamam de toxinas. Sou alérgico a ar-condicionado, porque se fosse bom a natureza já trataria de vir falseada. Minhas idiossincrasias só não são piores do que as da Claudinha, que dorme as nove da noite, ou as do Dennis, que só toma café frio e seu menu se restringe a pipocas e alcaparras. Já o Fifo não pode ver nada sujo, mal acaba de comer e já vai à pia lavar louça. O Vinícius tem a mania de imitar o Chacrinha, coisa que o Dennis tem pavor. As idiossincrasias, que seríamos sem elas?

Não consigo ler jornal sem que seja na ordem. Primeiro os editoriais, depois a política, a geral, dou uma olhada só nas manchetes da página policial, porque os personagens só mudam de nome, e, por último, a página de cultura. Mania herdada de outro vício, que é o de sempre comer a melhor bolacha quando já não há quase mais fome.

Conheci um sujeito que detestava pessoas que tinham piscina em casa e outro que desconfiava de homens que mandavam flores e usavam terno e gravata. Confesso que também desconfio, principalmente no verão, onde nada justifica – nem mesmo a tradição, o decoro e o ar-condicionado – combinação tão extemporânea. Aliás, adoro usar algumas palavras. Extemporânea é uma delas.

Acho um absurdo comer pizza com estrogonofe e batata palha por cima ou gente que coloca açúcar no café. Tenho alergia a políticos sem noção da separação entre bens privados e interesses públicos, mas principalmente dos eleitores mal informados que os elegem. Gosto de fotografia, literatura e cinema. Mas do cinema que eu gosto, quase ninguém aprecia.

Mas eu queria mesmo é ter um milhão de dólares, para morar um mês em cada cidade do mundo, pegar na mão da namorada – não sem antes se comover com sua existência extemporânea – e ouvi-la dizer: bom dia, meu moço bonito.

Diário Catarinense, 11 de fevereiro de 2011

11 comentários:

gilvas disse...

agradeço, fabio, pela menção à pavorosa pizza de estrogonofe. é uma invenção infeliz. eu pensava ser o único a se horrorizar com ela.

Dauro Veras disse...

Belo texto, Fabinho. Me fez pensar em minhas próprias idiossincrasias. Várias delas, coincidentes com as suas. Também abomino açúcar em café.

turnes disse...

Truffaut!!

vinícius alves disse...

grande fabinho. cê só esqueceu de dizer da nossa mania de levar algo pra ler no banheiro, pra confirmar aquela máxima do leminski: "a gente caga lendo pra esquecer que é bicho."

amprex do vini

Marco disse...

Fábio, como disse ontem, o problema não é do condicionado ar mas ar não acomodado e da qual tem o gosto que merece, eu prefiro a brisa de minha velha e "civilizada" Imbituba, ainda assim, quero a conforte dde 15 graus! Mais que isso: coisa de animal!

vinícius alves disse...

sisqueceu, nada! eu é que ando com o meu alzhinho a mil. perdón, don fabito. valeu o outro post pela lembrança do lema, pelo menos essa. hehehe!

amprex do vini

Fifo Lima disse...

teu negócio prosperou. partiu daqui, foi ao dauro e ao christofoletti. agora devo começar um texto pela louça.

La Vanu disse...

Extemporânea é uma boa palavra. A minha é "sine qua non". Adoro! E tenho quase certeza que do cinema que tu gosta, nós leitores teus também gostamos.

Colafina disse...

Mas báh! Tava inspirado...

Luca Leicam disse...

Tão comum o apetite por manias e expressões que são retidas no funil que não escoa. Tens a síntese da idéia rápida de fecha uma imagem que vai, por ex., da linha do azedume doce com um café sem açúcar, até o sonho convencional de ser um milionário normal.

Luca Leicam disse...

Tão comum o apetite por manias e expressões que são retidas no funil que não escoa. Tens a síntese da idéia rápida de fecha uma imagem que vai, por ex., da linha do azedume doce com um café sem açúcar, até o sonho convencional de ser um milionário normal.