7 de junho de 2009

La Vanu criou um blogue bem bacana, no qual ela posta respostas de 25 perguntas que fez para algumas pessoas. Para conhecer o blogue 25 perguntas, entra aqui. Para conhecer mais La Vanu, entra aqui.

6 de junho de 2009

As coisas sempre estão longe

As coisas nunca estão por perto quando a gente mais precisa delas. Quero o cortador de unhas, e ele está não sei onde. Preciso da toalha de banho, mas todas estão no cesto de roupas sujas. E aquele disco que deu uma vontade maluca de ouvir, só pra lembrar de alguém que também está longe: no tempo, no espaço? Não encontro. O fone de ouvido, aquela fotografia, a cópia do contrato, os livros. Estes dariam um capítulo inteiro se eu tivesse paciência para escrever um livro que se chamasse “As coisas sempre estão longe”. Procuro, entre as obras de Oswald de Andrade, meu Serafim Ponte Grande. Encontro todos os outros, mas adivinha qual não está lá? Dá certo, às vezes, fingir que estou procurando outro livro. Aí ele aparece.

As pessoas também sempre estão longe. Ando desperdiçando beleza longe das pessoas. E nem gosto de telefone. Se gostasse, poderia ao menos reduzir virtualmente a distância com eles. Mas o telefone também sempre está longe. Além do mais, eles chegaram na minha vida quando eu já era um cara de 18 anos. Não tinha essa de telefonar para avisar o tio que o avô queria que ele fosse lá jogar canastra com ele. A gente atravessava dois bairros, uma avenida de mão dupla no meio, passava na casa dos amigos pra combinar de jogar uma pelada mais tarde, porque ninguém tinha telefone, e dava pessoalmente o recado. As coisas não estavam muito perto desde aquela época, mas a gente não tinha medo de ir ao encontro delas. Se eu gostasse de telefones talvez todas as outras coisas estivessem mais perto. Mas ainda tenho a mania da adolescência de ir sem telefonar antes. Na maioria das vezes, dou com a cara na porta. Mas eu gosto do caminho. Talvez a melhor coisa no fato de as coisas estarem sempre longe é que sempre tem caminho para que possamos ir atrás delas, e, no meio, encontrar outras coisas, outras pessoas.

Já as pessoas, nem sabem o que querem, nem sempre compreendem o que se passa com elas e com os outros. As coisas sempre estão longe, mas elas não escolhem esta condição. Na verdade, nem sei mesmo se as coisas existem. Talvez, a grande ilusão do mundo seja este auto-engano de acreditar nas coisas, nas pessoas, ou nos deuses. Eu desisti de compreender as coisas, porque acabo de descobrir o aparelho de barbear dentro da geladeira. O que ele foi fazer lá, sozinho, com esse frio todo? Se as coisas sempre estão longe, ou as encontramos fora de seu lugar habitual, que dirá as pessoas.

30 de maio de 2009

O Funcultural e o Tribunal de Contas

Há muito tempo que artistas, intelectuais e produtores culturais reclamam da ausência de uma política pública para a cultura. Para que não pensem e digam e falem que se trata de uma pendenga pessoal com este ou aquele governo, essa ausência é quase atávica. Ela existe desde que a Santa e Brega Catarina tem esse nome. Nunca houve uma política séria e democrática para a área. E é preciso fazer o mea culpa, porque os que reclamam talvez não tenham feito a coisa certa, ou tenham um medo atávico de reclamar, avalizando, assim, as políticas detestáveis de governo, em detrimento de uma política de Estado.

Precisou o Tribunal de Contas, num levantamento muito sério, relatar o óbvio. Qualquer um que lida com essa coisa quase abstrata chamada cultura, mas que depende dessa coisa quase concreta que se chama dinheiro, sabe que o Funcultural é quase uma aberração jurídica, do modo como ele funciona. Para que o leitor tenha uma ideia rápida, funciona da seguinte maneira.

Você quer publicar um livro. Faz um projeto e envia para o Funcultural. Tem um Conselho Estadual de Cultural. Ele se reúne e diz se teu projeto é bom ou não. Se aprovado, você bate na porta de algum empresário que dirá, com dinheiro que não é dele, mas do Estado, se teu livro merece ser publicado, mesmo que o Conselho já tenha dito que sim. Mas a novela não termina aí. Se você levou sorte, o empresário deposita a grana numa conta do governo para o teu livro. Mas o governo, aí está uma sacanagem do negócio, só libera quando bem entender. Tem gente, segundo o TC que já aprovou e captou há mais de ano e até agora nada.

Mas a maluquice não para por aí. O TC revelou que 40% da verba foram destinadas a apenas cinco projetos. E dois deles, adivinha quais são? Sim, o leitor acertou. Um é o Balé Bolshoi e o outro o Instituto de Dança de Joinville. Ou seja, política de governo, e não de Estado, como deveria ser. Se o leitor for experto e pesquisar por aí, saberá quem são os sócios destes institutos, que, inclusive, por conta de escândalos, só não foram parar numa CPI porque na Assembleia Legislativa tá tudo dominado. Sem oposição, e sem que o levantamento seríssimo do Tribunal de Contas, e que merece o aplaudido, tenha validade punitiva, passaremos mais alguns anos, iguais a trouxas, captando dinheiro público na iniciativa privada para financiar projetos do próprio governo.

23 de maio de 2009

Perto, bem perto

Uma pergunta que muita gente faz para quem escreve é de onde vem a inspiração. Antes de responder, sempre digo que a priori não creio em inspiração. O que já é uma resposta. Se não creio, como poderia saber de onde ela vem? A ideia da existência de uma musa que sopre no ouvido os versos já prontos ou de que o escritor é um sujeito passível de ser inspirado é muito antiga. Por conta disso, fica difícil desassociar escritor da ideia de musa. Escrever não é uma atividade comum, não exige curso superior, e a densidade escritor por metro quadrado é bem pequena.

Para saber escrever é preciso, antes de mais nada, saber ler. Isso vale para qualquer atividade humana. Ninguém decide ser ator sem nunca ter ido ao teatro. Dificilmente um sujeito opta pela arquitetura sem ter se encantado com alguma forma, e por aí vai. Ao que chamam de inspiração, nada mais é do que uma espécie de memória afetiva, que vez ou outra surpreende com alguma imagem, ou ideia. Mas ela não é estranha, estrangeira, ou venha de fora de nós. Só podemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Nem sei, na verdade, porque estou falando sobre isso. Talvez seja a famosa embromação, doença que acomete cronistas de vez em quando. Não por falta de assunto. Eles não faltam, basta abrir os jornais, caminhar no calçadão, ouvir uma conversa no café sem que os que falam percebam, ler um livro, enfim, conhecer alguém. Poderia falar sobre os dias lindos que têm feito, sobre o friozinho bom. Assunto nunca falta. Até mesmo a falta de assunto é um assunto.

Mas tem dias que tudo fica meio entorpecido. Dá vontade de falar sobre nada mesmo, apenas sentar no banco da praça e contar quantos passantes têm blusa amarela, quantos usam anéis, ou no que está pensando aquela senhora com sacolas na mão e passo apertado.

Vontade mesmo é de fechar os olhos e sentir o calor do sol, não dar nome às coisas, apenas querer ter nascido pelo menos vinte anos mais tarde, para que qualquer diferença não fosse sentida, não causasse confusão, e querer ficar perto, bem perto. Tão perto que nem o fio da luz do sol consiga passar por entre os corpos.

16 de maio de 2009

Na escola Adelina Régis

Em Videira, no Meio-Oeste de Santa Catarina, tem uma escola pública diferente, a Escola de Educação Básica Professora Adelina Régis. Desde 2003, uma de suas professoras, Lia Colomé, com apoio fundamental da Unimed e de todo o corpo docente, coordena o projeto Encontro Marcado, idealizado por ela.

A ideia é simples, mas revolucionaria, como comentou comovida a diretora interina, Rosilene Zago, na abertura da 12ª edição do evento, que aconteceu na última segunda-feira. A cada edição, um escritor é convidado a visitar a cidade e conversar sobre sua obra com os alunos da escola. Nesta edição, este escriba aqui ficou até antes de ontem na região, e conversou também com estudantes não só da Videira, mas de Iomerê, Pinheiro Preto e Fraiburgo, numa maratona de debates, onde pude perceber que os adolescentes têm um interesse enorme pelo que escrevemos.

Já passaram pelo projeto, meus colegas desta página, Amílcar Neves e Maicon Tenfen, além de Silveira de Souza, Flávio José Cardoso, Júlio de Queirós, Donaldo Schüler e Maria de Lourdes Ramos Krüger, entre outros. E o projeto cresceu tanto, seja pelo interesse dos alunos, sem o qual a ideia não teria sentido, seja pela disposição da Lia, seja pelo apoio fundamental da Unimed, da Rita, da doutora Magali, dos doutores Flávio e Adroaldo, e tantos outros, que neste ano ainda, visitarei mais de uma dezena de cidades.

Isso significa que uma proposta saída de uma escola pública estadual, no interior do Estado, conseguiu exportar internamente, digamos assim, um projeto revolucionário. A ponto de diretoras de outras escolas e a própria Unimed solicitarem a visita dos escritores em outras cidades, por perceberem que este contato é uma das chaves para a formação de futuros leitores. Num Estado onde os governos fazem questão de manter o povo na ignorância, acreditando que cultura e educação é trazer cursos de dança da Rússia, bales da Polônia, entre outras aberrações como o funcionamento esquizofrênico do Funcultural, professores de escolas públicas, cientes de que eles são Estado e que os governos passam, entendem que a revolução cultural começa mesmo é em casa, silenciosa, mas muito mais eficaz do que os milhões gastos com propagandas enganosas, e projetos não mais que risíveis.

10 de maio de 2009

QUEM QUER TURISTA?

Na semana que se inicia, pouco mais de 500 pessoas debaterão o turismo na Ilha de Nossa Senhora dos Aterros. Mas não pense o leitor que entre os convidados estarão pessoas que há muito debatem publicamente o presente e o futuro urbano, social, cultural e turístico da cidade.
Na reunião, mesmo que financiado com R$ 5 milhões pelo governo estadual e mais R$ 2,5 milhões da Embratur, só poderão entrar magnatas dispostos a pagar US$ 5 mil pelo ingresso.A primeira leitura que se pode fazer deste evento é a de que os problemas que atingem diariamente a convivência pública dos habitantes da Ilha não serão debatidos por quem vive aqui, mas pelo que o governo estadual chama de potenciais investidores. Mas não seria correto primeiro conversar com a população para saber se ela quer? E se quer mesmo, de que forma isso pode acontecer?
Ou o leitor pensa que quem pagará tanto pelo ingresso estará interessado em como acabar com a marginalização crescente das comunidades carentes ou com a falta de espaços de lazer, de investimento em cultura e educação, em comandar uma ação que tire a Capital do Estado da vergonhosa condição de segunda pior Capital no que refere a saneamento básico, ou que discuta os crimes ambientais e sociais cometidos diariamente por parte daqueles que desconhecem, seja por por ignorância, seja por ganância, o real significado das palavras futuro e planejamento urbano? Por que o investimento nos debates sobre o Plano Diretor Participativo foram tão minguados, ridículos até, se comparados com o WTTC.
Um evento que já foi rejeitado pelo próprio Ministério do Turismo, que considerou o custo benefício muito aquém do desejado. Por que uma coisa que não serve ao Brasil serviria para Santa Catarina? Seria mais uma demonstração do governo de querer separar, tal e qual com o Código Ambiental, o Estado do resto do país?Não creio. Acredito mesmo que há um deslumbramento irracional, uma falta de visão democrática sobre os processos de construir uma cidade que aos poucos vai destruindo seu patrimônio cultural e ambiental. Talvez porque este deslumbre impeça de se fazer perguntas fundamentais a estas alturas, tais como, quem quer mais aterros? Quem quer mais viadutos? Quem quer mais centros de compras sobre o mangue? Quer quer mesmo jogar golfe no Costão do Santinho? Quem quer mesmo mais turistas?

2 de maio de 2009

DECLARAÇÃO DE RENDA


Prezado senhor diretor da Secretaria da Receita Federal. Venho, por meio desta, mais uma vez, declarar minha renda anual. Para começar, declaro que nada deste mundo que por ventura esteja próximo de mim, seja meu mesmo. Estas coisas apenas estão provisoriamente comigo. Como não creio em vida eterna, não tenho nenhum interesse em levar tais tralhas comigo no dia em que virar semente. Além do mais. sou um sujeito muito antigo, diriam meus amigos, porque ainda concordo como um tal Pierre Joseph Proudhon, que morreu 97 anos antes de eu nascer, quando disse que toda a propriedade é um roubo.

Circulo por aí com um automóvel  importado, sim, fabricado em 1995 do século passado. Faz tempo que o mecânico disse que precisa fazer o motor dele. Mas como não tive renda no ano que passou, apenas recebi o suficiente para sobreviver, o referido bólido continua fumegando. Até onde compreendo, renda é aquilo que sobra. Sendo assim, declaro, prezado diretor, que não sobrou nada do minguado exercício 2008.

No mais, declaro que comprei um sofá usado, da minha amiga Cláudia, mas foi ela quem pagou o frete. Declaro também que comprei alguns livros novos com meu amigo Daniel, da Livros e Livros, e outros usados na banca do Lima, ali na Catedral. Para o senhor ter uma ideia, não consegui sequer comprar um cachimbo novo. Os que entraram na coleção foram presentes do Marco e da Loli, que trouxeram da Índia, e outro da Carmem, que trouxe da Turquia. 

Ah, declaro que comprei um vestido muito bonito pra minha filha, a Luna (cujo nome completo e CPF estão na parte dos dependentes), uma garrafa térmica nova para o mate matinal, um jogo novo de pilhas recarregáveis, algumas canetas, um par de sapatos e uma camisa na última liquidação de verão, uma armação de óculos nova (apenas porque o oftalmologista disse que com a velha eu estava perdendo a visão periférica), duas resmas de papel ofício, o último disco do Tom Zé, que aliás, senhor diretor, está bom demais, e dois pneus dianteiros recauchutados para o carro supracitado, 

 Declaro ainda, senhor diretor, que fico com pena daquelas que tiveram renda e pagaram ao Estado para ter um sistema de saúde bacana, infra-estrutura, educação, cultura e, coitados, ainda tiveram que pagar plano de saúde privado, escola particular e pedágio.  Mas, de qualquer maneira, parece que alguns deputados, seus parentes e amigos souberam usar bem essa renda. Declaro, portanto, que mesmo não tendo renda, já paguei uma grana de imposto, tirada de cada prato de arroz que comi, de cada caneta que usei. Portanto, declaro mesmo que tenho pena de mim mesmo, por ser apenas mais um brasileiro idiota jogando dinheiro pelo ralo.


Diário Catarinense, 2 de maio de 2009

25 de abril de 2009

Digressões sobre o sentir

Quando alguém diz “sinto muito” está querendo dizer que nada sente. É apenas uma desculpa para dizer que não sente nada, que chegou ao ponto que nada pode fazer a não ser dizer que “sente muito”. Dizer que sente, muito ou pouco – já que não existe medida para o sentir – não é sentir, é apenas dizer. Quando alguém diz “sinto muito” é isto que sinto: uma espécie de piedade disfarçada, porque não há mais nada a sentir a não ser “sentir muito”, de preferência com um sorriso de Pilatos lavando as mãos.

Quando alguém diz que não sabe o que sente não quer dizer que não sabe o que sente, mas quer dizer mesmo que não sente nada, porque se sentisse mesmo alguma coisa, diria: “eu sinto”, nem muito nem pouco, apenas: “sinto”. Ou nada diria, o que é melhor. Sentir é abstrato. Num dia sentimos, por exemplo, saudade, e no outro dia nem lembramos mais, seja de alguém, seja de um fato, seja de um objeto. Não sei se sinto saudade (será que quero dizer que não sinto nada, pela minha própria tese digressiva?) de alguém ou do modo de ter estado junto.

Se calcular a centimetragem do sentir já é algo tão inútil quanto contar estrelas, ainda que seja poético fazê-lo, talvez seja mais fácil calcular o tamanho do autoengano quando dizemos, quase por impulso, moda, estilo, ou só porque é simpático dizer, que um dia (sabe-se lá quando) sentiremos saudade. Saudade não é uma escolha. Não sabemos nunca quando ela apertará, nem quando teremos vontade de chorar de tanto senti-la.

A saudade, seja de um terreno baldio, seja de um dia cinzento, seja do sótão da casa onde dormíamos de porta aberta porque não havia medo de balas perdidas, não tem mesmo medida nem hora. Mas o que dizer de uma saudade que sinto do futuro? De alguém cujos movimentos não conheço e nunca senti seu cheiro? De alguém cujo sentimento é só palavra? Não sei muito bem o sentido deste sentir, por isso não posso dizer “sinto muito” ou que não sei o que sinto, mesmo que seja o máximo da contradição. Sentir é contradizer. Sentir é só sentir, mas eu sinto.

18 de abril de 2009

Natureza não tem dono

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, usando de uma prerrogativa que lhe cabe, que é o de defender o meio ambiente e a Constituição, disse que prenderia quem ferisse o Código Florestal Brasileiro. No que lhe dou toda razão. Defender a Constituição não é um ato ditatorial, como afirmou num discurso maniqueísta o governador, muito pelo contrário. Ditadura é ferir princípios constitucionais.

Propor um código a priori inconstitucional, e ainda por cima, pelo menos em parte, poluente, é uma maluquice sem fim, beirando a ideais separatistas. Não sou favorável ao centralismo total, principalmente no que diz respeito à distribuição de renda, mas a Constituição deve ser respeitada, seja por quem está no governo, seja por quem não está. Se não for desse modo, daqui a pouco terá governador propondo a aberração da pena de morte em seu estado para atender uma suposta “necessidade regional”.

Os discursos dos deputados estaduais repudiando o ministro, em defesa do código que aprovaram (muitos nem o leram, e votaram porque o rei mandou; outros, considerados de esquerda, vergonhosamente se abstiveram), foi a coisa mais patética que assisti na tevê da AL. Alguns chegaram a comentar o colete que o ministro usava, sem entrar no mérito da questão, porque obviamente não têm capacidade para tal.

Santa Catarina é o Estado que mais desmata no país. Será que é só coincidência o fato de ser também um dos que mais sofre por desastres ambientais? A natureza não pertence aos agricultores, mas a todos. Portanto, da parte que me cabe destes rios e matas, eu quero que suas plantações e cortes de madeira fiquem bem longe, por favor.

A defesa da devastação da natureza em prol de um sistema arcaico de plantação é análoga a defesa que os senhores de engenho usavam contra os abolicionistas. É tão paradoxal que agora “ambientalista” e “ecologista” são palavras pejorativas, como foi no passado “abolicionista”. É preciso compreender que se não quisermos mais desastres devemos repensar os paradigmas de produção e consumo agrícola. Alguns artigos do código catarinense favorecem apenas aos donos de terra, especuladores, e gente que não está nem aí com o ar que respiramos, apenas com o lucro que terá ao poluir a natureza. E ao que me consta, ela é de todos, não de meia dúzia de senhores de terra.

11 de abril de 2009

Crítica e público

Existe uma diferença sempre latente entre o gosto geral, do público (mesmo que não saibamos definir bem o que seja “público”, pela sua heterogeneidade) e da crítica (igualmente). Ainda assim, é comum, principalmente em festivais de música, dança ou cinema, o voto popular ser diferente do voto da crítica.

Do mesmo modo que não dá para generalizar o gosto do que chamamos de “público”, existe um gosto médio, de uma maioria. Ele é formado pela comunicação de massa, principalmente a televisão. Se a Ivete Sangalo aparece todos os finais de semana na tevê, por que a maioria que a assiste gostaria de ouvir música melhor? Ninguém pode gostar do que não conhece.

O problema da formação do gosto, e por isto a máxima de que o gosto não se discute não tem sentido, é que alguém só pode gostar de algo se primeiro conhecer, e, em segundo lugar, gostar do que é consenso. Afinal, poucos gostam de se sentir sós, inclusive na divisão do gosto.

Os meios de comunicação de massa não fazem a menor questão de que a maioria das pessoas tenha uma boa formação intelectual ou cultural. A tendência, seja nas rádios, seja nas tevês, nas revistas, nas livrarias, é ter cada vez mais do mesmo. E esta tendência é que faz com que o público se distancie da crítica, porque o crítico procura, garimpa, vai ouvir o que não toca na rádio, o lado B, como se dizia na época do vinil. E por isto sua formação é diferente. Mas é óbvio que mesmo críticos, por sorte, divergem também, e muito.

Outro dia vi no Youtube um debate entre os escritores, já mortos, Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende. (veja aqui: parte um, parte dois, parte três) O programa durou pelo menos meia hora, foi exibido num canal aberto, na Rede Globo, e era uma conversa franca, sobre vários assuntos. Hoje, este debate não levaria um minuto, só seria exibido num canal fechado, ou seja, passaria ao largo do suposto “gosto da maioria”. É óbvio, portanto, que a formação do gosto só pode ser ruim, porque se em algum momento da história Nelson Rodrigues e Otto Lara debatiam francamente, e hoje quem debate são uns debiloides num aparente show-realidade, com uma audiência fantástica, o que podemos esperar do gosto público? Pelo jeito nada. A não ser que a tendência de se distanciar do gosto da crítica seja cada vez maior, infelizmente.

Diário Catarinense, 11 de abril de 2009

4 de abril de 2009

A quem os deputados defendem?

A aprovação absurda do código ambiental no começo desta semana, pelos deputados estaduais, teve, de um lado, os defensores, o governo e os agricultores e donos de terra, e, de outro, os ambientalistas. A população, no geral, esteve apática, como se nada disso tivesse a ver com ela. Talvez tenha sido este o grande problema. Os agricultores afirmam que a atual legislação federal os impede de plantar mais e de cortar mais árvores para plantar mais. A distância das margens dos rios para uso e plantio, cujo código brasileiro diz que deve ser de 30 metros, passou para cinco no código estadual. O impacto, até um bebê sabe disto, será tremendo. Os agricultores e donos de terra têm interesses pessoais, que é o de ampliar sua capacidade de produção. Mas precisamos saber que estes interesses prejudicam essencialmente o meio ambiente, mesmo que a produção seja ampliada.

É preciso que nós, que não somos donos de terras, mas consumidores desta produção dos donos de terra, escolhamos entre um futuro sem desastres ambientais ou um pouco mais de comida na mesa. A produção ostensiva de suínos no Oeste catarinense, por exemplo, é uma das maiores poluidoras da região. O que você prefere? Comer mais porco ou ter uma vida melhor? Você quer comer mais maçãs ou ter sua casa destruída pela enchente ou não ter água para beber no futuro? Estas eram as perguntas que os deputados deveriam ter feito antes de ter votado. A aprovação do novo código, além de inconstitucional, é um desastre maior do que o ocorrido no final de 2008, escreveu, na Folha de S. Paulo, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Sem contar que Santa Catarina já sustenta o título de campeã nacional de desmatamento dos remanescentes da Mata Atlântica.

Precisamos mudar radicalmente nossa postura diante da ocupação violenta da natureza, e ela passa também pelo apoio a todas as medidas, mesmo as radicais, a favor do meio ambiente, ou deixaremos a nossos filhos um enorme rastro de desastres, rios sujos, furacões, mais e mais enchentes, mais deslizamentos e, quem sabe, um belo deserto. Para quem se pretende ser um Estado turístico, nada mal começar destruindo aquilo que o turista vem buscar aqui, a natureza. Os nobres deputados catarinenses, incluindo os que se vergonhosamente se abstiveram, mostraram ao resto do país que Santa Catarina é um Estado muito pobre e muito tacanho mesmo no que diz respeito ao meio ambiente. A quem eles defenderam mesmo?

Diário Catarinense, 4 de abril de 2009

SOBRE O ÓDIO

a cena mais emblemática da insanidade coletiva causada não pelo vírus, mas pelo mentecapto presidente, é a do governador ronaldo caiado, de...