25 de outubro de 2008

Como viver só

Lembro de ter escrito, em algum destes sábados, sobre as conferências do filósofo Roland Barthes, às quais denominou Como viver junto. Por algum motivo, havia relido uma entrevista feita pelo escritor H.G. Wells com o ditador Joseph Stálin, e comentava a idéia de viver junto não no sentido, digamos, bíblico da coisa, mas no fato de o ser humano ser necessariamente gregário, entre outras questões.

Houve uma época em que a economia era movida pelos casamentos. Estado, Igreja e empresários apoiaram a construção de uma nova família, porque significava aumento de gente no mundo para consumir. Junto com isso, a "nova casa" própria (sonho quase moral alimentado pela tríade citada) incrementava a economia, fazendo felizes os que fabricam eletrodomésticos, as imobiliárias, as construtoras, e toda a cadeia de consumo. Mas um fator novo, nas últimas décadas, tem invertido um pouco essa lógica. Muitas pessoas, por motivos dos mais variados, inclusive até por convicção, vivem sós.

Criado em uma família enorme, com tios, primos, irmãos e agregados, sempre vivi em casa cheia, porém, no último ano, experimento a sensação de viver só. Mas deveria existir uma escola para os recém-sós. Panos de prato, por exemplo. Quando a diarista veio a primeira vez, perguntou-me onde eu os guardava, e eu acreditei que havia uma árvore que dava panos de prato. E a cera? A última lata que eu havia visto foi aquela que usei a tampa para fingir de volante para brincar de motorista. E Q-boa? Alguém sabe o que é isso? Roupa? Como as roupas se lavam? E as louças?

A primeira mudança substancial da vida de um recém-solteiro é o conteúdo do carrinho de supermercado. Saem as velas, os materiais de limpeza, o leite, os panos de toda ordem, e entram as bebidas, os bons azeites de oliva, as massas importadas, os cremes pós-barba mais caros, os DVDs, os CDs e as cerejas.

Viver só é divertido. Não há cobranças por horário, ninguém lhe reclama presença, pede socorro de madrugada, ou ronca ao seu lado. Mas para viver só, é preciso estar atento a duas coisas fundamentais. A primeira, jamais se esquecer de levar a toalha na hora do banho, e, a segunda, sempre deixar uma muda de roupa na mala, pois mais dia menos pode aparecer aquele vontade quase atávica de fugir de casa e abandonar-se, finalmente, a si mesmo.

18 de outubro de 2008

Quem quer asfalto?

A aceitação pública e inquestionável de alguns tópicos na campanha para prefeito da Ilha dos Aterros me impressiona. Aonde foi parar (se é que existiu um dia) o senso crítico e a capacidade de debater os problemas essenciais de uma cidade que se afunda diariamente? Os dois candidatos, no segundo turno, disputam não um cargo público para planejar o futuro de uma cidade visivelmente a caminho do caos urbano, mas uma corrida sobre quem é capaz de fazer ou já fez mais obras.

Será que ficaremos o resto de nossas vidas achando que o melhor prefeito será o que faz ou fez mais obras? Pelo jeito, e pela vontade da população, infelizmente parece que sim. Nessa semana, a divulgação de uma pesquisa feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, pelo Ministério da Educação e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, conclui que investir em educação não dá voto a ninguém. A turma gosta mesmo é de asfalto.

Já era notório o fato de que investir em cultura nunca deu voto a ninguém. O atual prefeito, que se comprometeu diante de produtores e artistas criar um fundo municipal de cultura e editais públicos de apoio à cultura, sequer abriu as portas da Fundação Franklin Cascaes para iniciar um debate sobre isso. Aliás, na semana em que se comemora o centenário de Franklin Cascaes, tanto a prefeitura quanto o governo do Estado não moveram um dedo para comemorar à altura do folclorista. Agora está explicado. Se investir em educação ninguém dá a menor bola, quanto menos voto, porque o prefeito perderia seu tempo com cultura?

O negócio é pichar toda a cidade, no sentido menos subversivo da palavra, e mais burro dela, que é o de passar piche em todas as ruas, praças, jardins e, claro, na cabeça dos eleitores, já que pouco se importam com isso. Se continuarmos nesse ritmo, teremos que pedir permissão à Claudinha Barbosa, filha do Zininho, pra mudar o começo do hino da cidade. Cantaremos, no futuro: "Um pedacinho de asfalto perdido no mar", porque terra de verdade, só no vasinho de manjericão na soleira da minha janela.

4 de outubro de 2008

À moda de Georges Perec (2)

Eu me lembro de ter começado a escrever sobre isso, por causa do livro de George Perec, e ter dito que continuaria a escrever. Talvez por isso, eu me lembre.

Eu me lembro das luzes vermelhas, enormes, das Casas da Água, do outro lado da avenida, quando desembarquei no terminal Rita Maria, enquanto aguardava tia Oda vir me buscar. Eu me lembro de nunca ter estado antes na Ilha dos Aterros. Eu me lembro de ter pensado que Florianópolis não era um bom nome para uma cidade tão bonita, porque homenageava um ditador. Talvez por isso tenha uma arquitetura tão irremediavelmente cafona, com a cara da sua elite. Eu me lembro de ter dito que eu ficaria aqui. Lembro também de ter ficado.

Eu me lembro de uma carroceria abandonada. Do alto dela, eu praticava boxe sem luvas. Suas madeiras se fingiam de cordas, e seu chão de lona. O horizonte do planalto era o universo a ser decifrado, devorado e atravessado. Lembro de nunca ter beijado o chão.

Eu me lembro de ter feito quase mil barcos de papel e os ter distribuído na medida do meu encantamento e desejo. Eu me lembro de ter dito a alguém que sabia que estaria ali naquele momento, quando da entrega do barco. Lembro vagamente de ter um livro muito próximo.

Eu me lembro de ter amanhecido num lugar chamado Porto da Lagoa e ter adormecido num outro porto, chamado Buenos Aires. Ao abrir dos olhos, alguém me pediu pra que eu não fosse. Ao fechar os olhos, acordei. Havia uns sapatos contíguos, que pertencia a uma palhaça de cabelos azuis. Eu me lembro de ter caminhado muito e de ter visto uma lua cheia como nunca, e de ter sido feliz.

Eu me lembro de três sonhos: 1) a multidão na Ponte perguntando: quem é essa mulher?; 2) um beijo aplaudido num caixa de supermercado após a passagem de uma controversa garrafa de azeite de olivas; 3) uma pequena que voltava nos anos de 1950 para que eu pudesse beijá-la e dizer em seguida: Parabéns, pequena, pelo seu aniversário.

Devo lembrar-me de parar de lembrar e viver mais, ainda que seja impossível viver mais sem lembrar.

27 de setembro de 2008

À moda de Georges Perec

Eu me lembro de um dia ter visto o sol e dito que ele estava fraco, e que desapareceria em breve. Era outono, estação propícia para que estrelas como o sol fiquem aparentemente mais fracas. Eu me lembro de ter pensado que tudo à vista é aparente.

Eu me lembro de ter negado levar uma xícara vazia, com resto e cheiro de café, para uma cozinha escura. A avó, talvez não apenas por isso, quebrou sua régua de medir roupa nas minhas costas. Não é da dor física que me lembro agora.

Eu me lembro do dia em que colei o nariz no vidro que me separava do berçário onde vi Luna pela primeira vez, mexendo sem parar os braços, porque, segundo o parteiro, acreditava que ainda estava no útero, e procurava as paredes da barriga. Mais tarde, também me lembro, perguntou-me se havia cadeira naquele útero, porque deveria ser muito cansativo aguardar por nove meses sem ficar cansada.

Eu me lembro de ter entrado na biblioteca, com o amigo de nome Oswaldo (onde anda?). Levou-me até a estante onde estavam dois volumes de A Divina Comédia, e disse: "Leia, é uma loucura". Eu li, e nunca mais voltei. Eu me lembro do dia em que alguém ficou fascinado pela edição fac-similar de O Guardador de Rebanhos, do Fernando Pessoa, talvez mais do que por mim.

Eu me lembro do dia em que demoliram a casa onde nasci, acocorado, no meio da rua. Algumas lágrimas, ainda que seja inconfessável falar em choro na cara dos meninos, se misturaram à terra da rua. Eu me lembro do rancor que guardei por pessoas que colocam casas abaixo. Eu me lembro de uma árvore (porém não de seu nome) que matei por causa das bolhas de sabão sopradas de um de seus troncos.

Eu me lembro do cheiro de sob as cobertas e do gosto do leite, onde o biscoito de amido de milho era mergulhado. Eu me lembro do e-mail que recebi no dia de meu último aniversário. A sensação de promessa e espera estava, de certo modo, registrada nele. Porém, nenhuma promessa, nenhuma espera, eu havia dito um dia antes, porque não há nada a esperar, nem o que prometer, ainda que eu te espere e te prometa.

Georges Perec escreveu Je Me Souviens, entre outros. Eu me lembro quando a Cláudia emprestou-me o livro. Tentarei lembrar-me de continuar na próxima semana.

20 de setembro de 2008

  • O livro e o filme

    O livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, é o último romance com a cara do século passado, na mesma linha de O processo, do Kafka, e A peste, do Camus, pela sua metáfora do modo como os seres humanos vivem juntos, e de como se relacionam entre si e com suas mediações. No caso dos dois anteriores a mediação se dava pelo Estado. No caso de Saramago, pela ausência dele, pelo menos no fim do enredo, já que o Estado é responsável por ter atirado os cegos num mundo sem nenhuma adaptação a eles, onde nem mesmo eles, com exceção de dois personagens (o que já era cego e a que não ficou cega), tinham experiência na escuridão. A diferença de Saramago com Camus e Kafka é que no Ensaio sobre a cegueira o Estado também se torna cego, na figura da ministra da saúde.

    O filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles, tem o mérito de manter o mesmo clima do livro de Saramago. Porém, o mais interessante do livro, que é sua narrativa lenta, e as observações do narrador, e, claro, a força da sua linguagem, Meirelles não conseguiu manter. Existem diretores que gostam de mostrar e outros que não gostam. Pode parecer um contra-senso, se falamos de cinema. Mas é nítida a diferença rítmica existente entre a cinematografia de alguns diretores como Tarkovski, Kurosawa, Bergmann e Godard, por exemplo, e a da maioria do cinemão norte-americano, com muito mais cortes do que os outros. Quanto mais corte, menos se vê. Quanto menos se dá a ver, menos se dá a refletir.

    Meirelles optou pelo cinemão, mais chegado à publicidade e ao entretenimento, com uma infinidade de cortes rápidos, e diálogos semelhantes aos cortes, igualmente rápidos. Sem tirar-lhe o mérito de soluções pertinentes a essa linguagem, quase um videoclipe, porque altamente competente, é uma pena que toda a reflexão metafórica do romance tenha se perdido.

    A diferença básica entre filme e livro, é que o romance de Saramago é uma quase-fábula da condição humana, e, a cada página, o autor força o leitor a fechar o livro para pensar, como escreveu Barthes sobre o prazer do texto. O ritmo alucinante do filme apenas prende a atenção e pega pela emoção. Meirelles fez um filme de ação, talvez por exigência do mercado, baseado num livro que é de reflexão, coisa da qual o mercado foge sempre.

Nota: No novo projeto gráfico do Diário Catarinense, a coluna sofreu um corte de mais de 1.000 caracteres. Como eu estava acostumado com o modelo anterior, acabei me passando no assunto, e tive que cortar depois Por isso, talvez, pareça que este texto esteja faltando pedaço. E está mesmo. só depois lembrei que aqui no blogue eu poderia tê-lo postado na íntegra. Mas, perdeu-se no universo digital e n a preguiça macunaímica para reescrevê-lo. De qualquer modo, a essência do que penso sobre essa relação filme/livro está aí. Quem quiser debater mais, é só comentar a postagem. Aquele abraço.

30 de agosto de 2008

E os programas dos programas?

Começaram os programas eleitorais gratuitos no rádio, na televisão e nas ruas. Mais do que tentar convencer a população a votar, o princípio básico dos programas é iludir. Desde que o convencimento deixou de ser concebido com teor político e programático (quando o comício público ainda era o palco principal das eleições), passando para o universo da propaganda, os candidatos cada vez menos são donos de sua própria vontade e mais da ilusão marqueteira.

Da cor do terno ao tipo de corte do cabelo, da espessura da armação do óculos ao tipo de interjeição a ser usada em cada ocasião, o que predomina nos programas é a vontade do publicitário, não a divulgação de seus programas políticos. Os candidatos, desconhecendo o universo dos estúdios, das trucagens, das velozes ilhas de edição, ficam sujeitos à lábia do comerciante e se esquecem que o que devem divulgar são suas idéias, não aparências. Mas é claro que nem todos têm idéias para serem divulgadas, no que facilita muito a aceitação das trucagens.

Na história das eleições sempre foram usadas musiquinhas como truque de convencimento. Agora, aquilo que os colonizados adoram chamar de jingles, é o principal negócio de uma campanha. Os partidos reclamam, brigam, fazem alianças por míseros segundos na televisão e no rádio e usam esse tempo para quê? Tocar musiquinha.

Porque não ocupam o tempo para ensinar, por exemplo, aos eleitores, qual o papel de um vereador, ou para explicar que um prefeito não pode fazer tudo o que promete? Seria bem mais didático e útil à democracia, além de honesto. Sei que os publicitários se amarram nesse truque, porque a propaganda é o negócio da alma, não o contrário como todos pensam.

Os programas mais se parecem com comercial de margarina do que qualquer outra coisa. Começam com aquela seqüência de imagens lindas, trucagens incríveis, rostos de todas os matizes, gente vestida de tudo quanto é tipo, para mostrar pluralidade, e... nada. Ou os caras não têm mais idéias, o que é fácil de constatar, ou , o que é cruel constatação, fazem apenas aquilo que o eleitor quer ver.

Os candidatos morrem de medo de dizer no que acreditam, porque muitas vezes, dizer o que pensam é ir contra a vontade do eleitor. O produto não se encerra em suas virtudes, ele tem que parecer ser virtuoso. E para isso, nada melhor, crêem os marqueteiros, os candidatos e, o pior, os próprios eleitores, do que apostar no que não surpreende. Por conta disso, idéias ou programas com conteúdos radicais (que deveriam ir às raízes) nenhum deles têm coragem de fazer, porque a idéia do risco de perder voto é tenebrosa.

Desse modo, o programa do DEM, por exemplo, ou o do PT, em nada se diferenciam, nem no seu ideal nem na sua forma. Aliás, o formato é denunciador da falta de criatividade de soluções, ou mesmo que fosse o caso, de um debate profundo sobre as questões que afligem a cidade. Talvez os únicos programas onde se pode compreender alguma coisa ou concluir sobre a real capacidade deste ou daquele candidato, sejam os debates propostos pelas emissoras. O TRE deveria propor, ao invés dos programas gratuitos do modo como são feitos, a idéia dos debates. Talvez, desse modo, não perderíamos tanto tempo tentando compreender o que essa gente quer dizer com seus programas tecnicamente incríveis, mais de conteúdo cada vez duvidoso.

23 de agosto de 2008

Ciceroneando Vanessa

No começo desta semana, ciceroneei a publicitária e roteirista Vanessa, paulistana, que, como tantos, ficou encantada com a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros. No primeiro passeio pelo centro histórico, admirou-se com a pouca altura dos prédios antigos (do que ainda resta desse acervo) e com sua singeleza arquitetônica. Passamos pela agência dos Correios, o Palácio Cruz e Sousa, a Catedral em reforma, e pelo pequeno acervo do casario envolto à Praça XV, misto de arquitetura colonial com peças modernistas. Pelas edificações novas, Vanessa não teceu comentários. Foi um silencio simbólico do óbvio. A arquitetura pós anos 1960 não difere em nada de qualquer cidade em qualquer lugar do mundo. Hoje, o que diferencia uma cidade de outra, o que lhe concede charme, o que chama a atenção, o que lhe torna única, é sua diferença arquitetônica e cultural, mais que sua natureza. Veja uma foto do centro de Cingapura e não haverá diferença alguma de Florianópolis.

Depois fomos ao aterro da Baía Sul. Avisei-a com cuidado que tudo aquilo ali, os camelódromos, os vazios, os estacionamentos, os restos de palmeira do projeto de Burle Marx, a distância do mar, o merdário bem na entrada da ponte, um monumento bizarro da maçonaria, a sujeira e o cheiro (misto de maresia e urina), o caixote do centro de eventos, o sambódromo, a vida de costas ao mar, tudo mesmo, um dia havia sido mar.

Ela quase não acreditou, e disse que a idéia de pisar sobre algo tão abandonado lhe dava medo, misturado ainda à idéia de que o mar, talvez um dia, pudesse querer recuperar o que foi seu. Disse a ela que não temesse, porque, infelizmente, a sabedoria humana capaz de fazer parecer terra firme aquilo que um dia foi líquido não é a mesma que fez transformar mar em merda.

Falando nisso, Vanessa contou a história de Tampa, na Flórida, que um dia já foi um pântano. Alguém, talvez seu padrasto com algum sotaque uruguaio, se não estou bem enganado, lhe disse quando ainda era pequena: Olha só, os norte-americanos conseguiram transformar um monte de merda em ouro. No Brasil, disse ele, tudo que é outro eles transformam em merda. A analogia serve para o aterro da Baía Sul.

Daniel é amigo de Vanessa, e paulistano igual. Mora há pouco menos de dois meses no Estreito, onde trabalha. Confidenciou, depois de uma cervejas, que nunca mais quer voltar a São Paulo. Tanto um quanto o outro acham a Ilha dos Aterros uma maravilha, da ponte Hercílio Luz às praias, do aparente sossego ao centro histórico, do silêncio à aparente segurança. Chego a conclusão que a Ilha dos Aterros é uma cidade aparente. Por trás da sua exuberante natureza esconde-se um dos piores índices de saneamento básico entre as capitais brasileiras, oculta-se uma das piores atuações públicas no que diz respeito à cultura. Diante de tanta beleza, vive uma das elites mais bregas do País, incapaz de se ver fora da sua própria ostentação, e que para mantê-la, não se furta de comprar licenças ambientais, subornar funcionários públicos e destruir mangues, poluir mananciais de água, construir prédios sem personalidade, enfim, fazer do que é público sua praia particular.

Esqueci de dizer que antes de tudo, tomamos um chope gelado na Kibelândia. Vanessa olhou para o pouco da lajota histórica que ainda se mantém ali, próximo da casa onde nasceu Victor Meirelles, e disse: que lindo. O resto, eu disse, virou asfalto. Aqui, tudo o que é belo se transforma. Ou em aterro, ou em piche, ou em merda. Vanessa foi embora no dia seguinte, porque tinha que ir. Mas ainda acha a Ilha dos Aterros uma maravilha. Perto de São Paulo, talvez seja. Mas se usarmos isso como consolo, que cidade teremos num futuro bem próximo?

16 de agosto de 2008

As razões da espera

A espera não tem razão, porque esperar é quase como não viver. Se eu esperar um dia ganhar sozinho em alguma loteria (uma espera estúpida, sendo que não jogo), posso perder o que me sobra viver sem o suposto dinheiro. Não construirei a escola na qual os professores receberão bem pelo ofício e que o pré-requisito para ser aluno seja a indignação. Não comprarei o cachimbo de nome Calabash, feito de espuma do mar, só existente em algum sítio da Turquia e na boca de Sherlock Holmes. Também não visitarei Badgá e Cusco, nem mascarei folhas de coca em Machu Pichu, muito menos voltarei aos becos que Pablo Picasso percorreu para chegar aos Quatro Gatos. A espera, vejam só, é cheia de nãos.

Do mesmo modo que não poderei (por esperar seja o que, ou quem quer que seja) fazer isso ou aquilo, adquirir ou pertencer, ou ter o que o "não" me concede. Sim, posso sentir o que não me é possível. Mesmo sem ter dinheiro, e não preciso de muito, como dizia Wally Salomão, sentirei a luz do sol, conversarei com os amigos, comerei o macarrão à bolonhesa do Alcindo da Cantina servido pelo Beto e cobrado pelo Alemão, arrumarei o cabelo contra o vento sul, caminharei toda a extensão da Hercílio Luz vendo os velhinhos que já perderam a noção do tempo à espera da indesejada das gentes chegar. Verei as meninas à espera do que nem elas mesmas sabem o que é; o rapaz aquele que pede esmolas, cujo direito de ir e vir não lhe pertence pelo pouco troco que recebe, e que por isso nada espera. Enfim, vejam só como a espera é cheia de sins.

A sabedoria, diziam os latinos, era se despir de todo medo e de toda expectativa. Se não há medo de perder nem medo de ganhar não há nem mesmo o que esperar. Enquanto se espera uma vitória temendo uma derrota todo o sentido da espera é também todo o sentido de uma vida para a maioria de nós. Talvez seja impossível viver sem esperar seja o que for: desde a espera para que o dia amanheça rápido até para que logo anoiteça. Quanto intervalo, quanta coisa se deixa de fazer quando se espera, pelo medo e pelo medo da espera. Sim, esperar é quase a mesma coisa que temer.

Esperar a vida na barriga ou esperar a morte, esperar o amor ou esperar que o amor acabe. Esperar pelo amigo que não vem, esperar que ele vá. Esperar a própria hora de não ver a hora que a espera chegue logo. A espera, vejam só, está em todas as palavras, não há como se livrar dela, e talvez reste apenas vivermos uma espera apenas digna, sem a ansiedade inerente a ela mesma. A espera é uma droga, a espera é o oásis, é o bem e o mal, é a dialética transformada em palavra. Nela residem ao mesmo tempo o verbo assistir do auxílio e o assistir de apenas ver o mundo passar.

Quem espera sempre alcança, dizem os que não sabem que tão logo o desejo esteja ao nosso alcance todo o sentido do esperar se evapora, não restando mais aquilo que se esperava ao alcançar, ainda que outro desejo o espere. Estou cansado de tanto esperar, do mesmo modo que não me canso de te esperar. Contraditório, eu sei. É por isso que espera não tem mesmo razão. A espera é uma caixa de contradições, e é nisso que reside a beleza da sua razão.

14 de agosto de 2008

Depois do sucesso de Lívia na bacia,
faço aqui o lançamento mundial
do segundo filme da série:
Lívia e o sentido da vida.

9 de agosto de 2008

  • Uma bomba sobre o Japão

    Hoje faz 63 anos que a cidade de Nagasaki foi destruída pela segunda bomba atômica lançada pelos Estados Unidos, matando aproximadamente 74 mil pessoas. Três dias antes, em 6 de agosto, muito cedo, enquanto boa parte da população de outra cidade, Hiroshima, ainda acordava, o presidente norte-americano autorizava o lançamento da primeira bomba, matando 140 mil pessoas. As duas armas acabaram com a vida de 250 mil pessoas, contando os efeitos posteriores da radiação, que mata até hoje.

    A crueldade do ataque não tem precedente. Aquelas pessoas que acordavam no Japão naqueles dias não escolheram participar da guerra, apenas nasceram naquele território. Não estavam uniformizadas, nem preparadas para qualquer batalha. Não foi, portanto, um ato de guerra, mas um massacre terrorista. E sendo assim, o maior de toda a história. Alguém foi punido? Não. O presidente norte-americano naquele começo de agosto chamava-se Harry Truman, e, ao que consta, morreu, em 1972, sem nenhum constrangimento por ter sido, possivelmente, o sujeito que mandou matar mais gente na história da humanidade.

    É curioso que a imagem mais conhecida dos ataques não tenha sido a de alguém mutilado, carbonizado, ferido que seja, até porque não existem registros do instante, a não ser do alto, e feita pelos próprios terroristas. O governo norte-americano priorizou a divulgação da imagem do vôo do avião B-29, conhecido como a fortaleza voadora. A fotografia imortalizada pelos vencedores, porque é sabido que a escrita da história é contada por eles, é do piloto Paul Tibbets à janela da aeronave batizada de Enola Gay, em homenagem à sua mãe Enola.

    Todo o simbolismo do ataque é amenizador. Do nome da mãe no avião, passando pelo adjetivo "alegre", ao "carinhoso" apelido da bomba, "Garotinho", tudo programado para fazer com que ninguém sinta culpa. O navegador do vôo, Theodore van Kirk, disse que levou uma Bíblia no avião, mas que nunca se arrependeu pelo que fez. Teve a desfaçatez de dizer que, se não tivesse feito isso, muita gente morreria. Pelo jeito, para ele, os que morreram nem eram gente. Talvez nunca tenham dito a Kir que a guerra já havia terminado, e que os milhares de japoneses assassinados não eram soldados e não estavam em guerra.

    A crueldade não pára por aí. Escolheram Hiroshima e Nagasaki por serem cidades rodeadas de montanha. Este detalhe geográfico, previam os executores da bomba, ampliou os efeitos da destruição. Mais do que uma vingança pelos ataques a Pearl Harbour, pouco mais de três anos antes, e mais do que a tentativa de acabar com uma guerra que já havia terminado, o que os Estados Unidos fizeram foi massacrar da forma mais violenta já vista mais de 250 mil pessoas, cuja única diferença com Paul Tibbets, sua mãe Enola, o navegador Theodore van Kirk e o presidente Truman era os olhos um pouco puxados.

    Hoje, apenas três países se recusaram a assinar um tratado para banir de vez do planeta a bomba atômica. Entre eles, os Estados Unidos. A cultura mais do que enraizada de seus cidadãos ainda acredita que Paul Tibets é um herói, só porque fez a homenagem mais imbecil e desumana que alguma mãe deve ter recebido em vida, e pelo seu sorriso sem graça na janela do B-52, quando pousou após o ataque. Os habitantes de Hiroshima e Nagasaki, há 63 anos, nem tiveram tempo de perguntar, como Pablo Neruda teve: "Sabes, porém, de onde vem a morte, se de cima ou de baixo?".

Diário Catarinense, 9 de agosto de 2008

2 de agosto de 2008

Não se faz política sem cultura

  • Cultura não é só política (e me refiro à aristotélica), é muito mais. Mas é impossível fazer política ou ser político sem cultura. O modo como um cidadão vota, como ele se candidata a um cargo público (muitas vezes achando que é privado), como se discutem as regras, tudo isso é cultura. A frase mais equivocada, e talvez a mais ouvida em época de eleições, é: "não gosto de política". Mal sabe esse falante, que seu enunciado, mesmo negando, é também um ato político. Portanto, não há como negar algo que se faz, mesmo sem saber que faz. Por isso que política é cultura, ainda que cultura não seja apenas isso.

    Mesmo assim, nos poucos debates feitos até agora, quase nada se falou de cultura. Mas a estas alturas, apesar de mais uma vez poder constatar o desprezo que a classe política tem pela classe artística, não é de estranhar. Um Estado que tem uma Lei de Incentivo escancaradamente inconstitucional e perversa, porque obriga produtores a serem captadores de recursos para o próprio governo, e que ainda acha feliz a bizarrice de ter numa mesma secretaria as funções do estímulo ao esporte e ao turismo, não é mesmo de se estranhar. Também não isentarei de culpa os próprios produtores que ainda enviam projetos e captam estes recursos. Dizem que é desespero, mas avalizar ilegalidades em nome do desespero é o primeiro passo para a barbárie.

    No plano municipal, o prefeito Dário Berger se elegeu com a proposta de criar um fundo municipal de cinema e lançar os editais de apoio à cultura. Estas eram as reivindicações, e são ainda, dos artistas e produtores. Transformar a política de apoio à cultura numa questão de estado e não de governo é tão pouco que parece absurdo que isso não tenha se concretizado. Mas nem esse pouco foi feito em três anos. A Lei Municipal de Incentivo à Cultura foi modificada sem que a classe fosse ouvida, e o único edital (ao teatro) também foi publicado sem a anuência dos interessados.

    Mas políticos têm pavor da palavra cultura, mal sabendo que esse mesmo pavor é em si mesmo cultura. Por isso é que nos debates não se toca no assunto, até porque eles nem têm idéia do que fazer, porque seus partidos não têm quadros para pensar sobre, porque intelectual e poder, como disse o poeta Drummond, são coisas quase incompatíveis, porque o intelectual de verdade sempre vai achar que o que ele mesmo está fazendo talvez ainda não seja o correto, porque intelectual é cheio de dúvidas. Políticos não. Eles trazem uma certeza em seus botões que é de admirar, porém, se arrepiam com a palavra cultura. Por isso é que Florianópolis não tem uma secretaria de cultura. Por isso é que Santa Catarina tem uma pasta onde se joga no mesmo saco o esporte e o turismo. Por isso é que ainda se perpetua essa lei abominável e inconstitucional no plano estadual, e que ninguém faz nada, nem o Ministério Público, nem o Tribunal de Contas e, pasmem, nem mesmo os mais interessados nela, que são os artistas e produtores.

    Talvez tudo isso seja reflexo de centenas de anos de um comportamento clientelista, onde os artistas pediam "uma ajuda" ao governo de plantão, ao invés de reivindicarem uma política democrática e coletiva, e o governo "dava", mesmo que apenas aos mais chegados. A cidade cresceu muito nestes últimos trinta anos, mas parece que apenas fisicamente, como um garoto crescido e sem juízo. Talvez seja a hora de qualificar o debate. Propostas existem. Falta apenas o principal, a compreensão de que não se faz política sem cultura.

SOBRE O ÓDIO

a cena mais emblemática da insanidade coletiva causada não pelo vírus, mas pelo mentecapto presidente, é a do governador ronaldo caiado, de...