2 de janeiro de 2008

O futuro não tem futuro

Buenos Aires - O futuro não tem muito futuro. Ele existe como linguagem, unicamente. Se considerarmos que cada milésimo de tempo corrido, (também uma figura de linguagem) ao invés de se transformar no futuro tão desejado, se veste mesmo é de um incômodo presente, fica mais fácil aceitar premissa tão despótica, ou fascista, como aquela que um outro amigo reclamava do poema de Manuel Bandeira que dizia assim: "Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), Talvez eu tenha medo. / Talvez sorria, ou diga:/ - Alô, iniludível!".

  • Por quê, então, nos apaixonamos tão intensamente por uma coisa que não existirá jamais, a não ser como linguagem? Compramos bilhetes de loteria, fazemos planos da casa própria, juntamos panelas, programamos jantares e orgias, aguardamos nove meses para ver a cara do rebento, que depois, num átimo de tempo, tem, sim, um futuro, alargado, encompridado num enorme presente.

    Tiramos retratos para aprisionar o passado, ou para nos vermos no futuro e dizer saudosos: "ah, que bom era aquele tempo". Mas que incapacidade enorme temos de deixar escapar aquele instante entre o "olha o passarinho" e o clique da máquina, uma exclamação ao presente, e dizer que aquele ínfimo momento era o único disponível? Ao invés disso, só pensamos em como ficará nossa cara no futuro daquela fotografia, ou em como daremos enormes gargalhadas ao nos vermos com roupas e cabelos tão fora de moda.

    O mestre Paulinho da Viola cantou: "Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim. Meu mundo é hoje, não existe o amanhã pra mim". Versos sábios o do sambista, que vive intensamente um presente da maneira mais humana, demasiadamente humana possível: cantando.

    Mas viver sem pensar no futuro é impensável para todos. Alguma coisa parece inevitável planejarmos, ainda que a iniludível ronde, e a gente a afugente com três toques sutis na madeira mais próxima. Quando menos percebemos, tateamos nossas mãos, penteamos o cabelo, olhamos no espelho as rugas que não são mais futuro, mas presente, e dizemos com certo alívio: "estamos vivos, apesar de tudo, veja bem, estamos vivos".

    O futuro pode ser uma folha de alface dobrada e de forma muito cuidadosa entregue pela mulher de nome Marina. Que mensagem encerra a folha? Que líquido a fez folha para um sempre quando? Que mensagem está escrita na sua língua de alface, ou na minha língua que nunca encontrou a sua? Tais questões, linguagens de enorme utopia, são a única virtude do futuro, porque é na pergunta sem resposta imediata que guardamos uma promessa de futuro. Aguardar respostas, único sentido de imaginar que num determinado presente, ainda remoto, possamos dizer: "Agora, sim, entendi". Mas mal descobrimos uma resposta, criamos outra pergunta, pois, já disse isso um dia destes, como viver sem perguntar? Enquanto isto, seguimos desejando um feliz ano novo, que é o que todos queremos. Mas o que é, afinal, ser feliz?

4 comentários:

Fabiana Lazzari disse...

oi Fábio!
Passa no meu blog que tem uma surpresa para ti.
Abraços
Fabi Lazzari

ronald augusto disse...

oi, fábio! mas tá uma lindeza tudo aqui!
beijão
ronald

Regininha disse...

Ser feliz talvez seja ler crônicas como esta!
beijo, meu querido!
E continua filosofando, e citando Paulinho da Viola, faz favor...
beijão.

Anônimo disse...

Fábio,
este é o Fábio que mais aprecio:
quando fala de alface.

Fernando Karl