23 de fevereiro de 2009
21 de fevereiro de 2009
Na boca! na boca!
Boa parte da apologia ao carnaval na poesia brasileira está nos versos de Manuel Bandeira. Tanta, que até mesmo um de seus livros chama-se “Carnaval”. Olhando bem para as fotografias do Manu (como Mário de Andrade o chamava na correspondência entre eles) não parece que o bardo fosse chegado num reinado de momo.
Mas o carnaval da época do Bandeira era diferente do de hoje, talvez seja por isso. Os sambas eram escritos por poetas, e o compositor não fazia concessão, nem rimas esdrúxulas. Hoje, o cara mistura o antigo Egito com a panela, e enche o samba de adjetivos. Dá lhe “esplendor” e “realeza”. Tudo padronizado para entreter milhões na televisão. Tenho profunda admiração pela paciência destas pessoas que nunca foram ao Rio de Janeiro, mas torcem pela Mangueira, por exemplo. Fico me perguntando que identidade, que sensação, que proximidade é esta que eu não consigo ter?
Mas existem grandes sambas de carnaval. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, roubada do perdido hino da República é belíssimo. Jamelão cantando “Tem xinxim no acarajé” também é genial. Algumas coisas, quando a criatividade acaba, deveriam acabar junto. Se não conseguem mais compor sambas legais, para que desfilar? Fecha um ano a escola, dois, sei lá, mas essa obrigação anual acabou com a beleza do samba. Aliás, qualquer obrigação acaba com qualquer coisa bacana.
Ainda bem que no carnaval podemos reler os versos do Bandeira. E eu imagino, como ele, sentir a tristeza toda daquelas cantigas, sempre por uma “dor daquilo que não se pode dizer”. Eu queria mesmo era ser como o rapaz desvairado, que parava na frente das mulheres bonitas pedindo que esguichassem lança-perfume em sua boca. Ele dizia: “Na boca, na boca”. Como sempre, mesmo fora do carnaval, algumas dão as costas. Outras, porém, fazem as suas vontades. “Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados”, escreveu Manuel Bandeira.
Se uma delas fosse capaz de me ouvir agora, eu queria apenas pedir-lhe, como disse o poeta: “Na boca! Na boca!”.
14 de fevereiro de 2009
Mil palavras
Apesar da frase feita avisar que uma imagem vale por mil palavras, as duas linguagens são tão distintas, que uma não substituirá a outra, tanto em seu significante (o óbvio) quanto no seu significado. Para a sustentação da tese de que uma imagem vale por mil palavras é preciso usar de palavra. De que maneira, com imagem, conseguiríamos? Mesmo que alguém, ao mostrar uma imagem, implicitamente queria dizer que não necessita de palavras, ela ainda terá tanta conotação, que será bem difícil o receptor da mensagem entender o que ela queria ou quis dizer.
Por que necessitamos tanto reter uma imagem num papel, numa tela, na parede da casa? Mesmo antes da invenção da fotografia, desde os primeiros rabiscos pré-históricos, sempre houve gente querendo “fixar” a realidade de algum modo. Mas a realidade é “infixável”, porque a própria fixidez é momentânea, disse Octávio Paz.
Talvez seja por isto que a arte (principalmente esta que quer ser fixada, a imagem), tenha tanta importância no imaginário coletivo. Ela não é vida, mas é um sinal dela, evidência, pegada, vestígio de que existiu alguma coisa, um objeto, uma pessoa, uma montanha ou uma araucária e, o mais importante, o de que alguém idealizou e deu forma àquele objeto a que chamamos imagem. Ela é tão complexa que mesmo “fixa” podemos ver seu movimento.
O que nos leva a desejar o que não nos pertence? Por que quero saber o que não está impresso na fotografia? As frases das meninas correndo numa hora feliz, o banco de ferro onde o casal sentou em Barcelona na foto de Robert Capa, a blusa de lã listrada na única fotografia tirada naquela sacada, o rosto escondido atrás dos braços e o pescoço visto de lado e mal iluminado. O que pensava? O que sentia enquanto sorria para a fotografia? Por que parece tão múltipla e tão inexistente ao mesmo tempo?
A vida é assim mesmo, como disse Roland Barthes, feita a golpes de pequenas solidões. Talvez por isso eu carregue esta impressão (em ambos os sentidos) de que me restou apenas uma fotografia. Quem sabe nela resida este vestígio de mil palavras que um dia significaram “sim”, mas que a imagem hoje insiste em me dizer “não”.
7 de fevereiro de 2009

Alguns motivos para amar Desterro
O pôr-do-sol em Santo Antônio de Lisboa, na calçada onde supostamente a princesa Isabel passou, levantando o vestido comprido, da escadinha de onde observávamos a vida passar, eu, mais Joca, mais Chico, mais Fifo.
Aquela árvore na Beira-Mar, quase em frente à Polícia Federal, e as prováveis baleias que nunca vi.
As infinitas vistas que tenho da janela lateral. Ainda que o Morro do Céu pareça sempre o mesmo, as cores transmutam a paisagem a cada segundo. Minha janela é meu filme.
Porque tenho um milhão de amigos, e pela certeza de que sempre encontrarei alguém com quem conversar na rua, a qualquer hora.
A prainha à direita da Praia do Forte, porque aquela da esquerda é frequentada por pessoas que colocam o carro na areia e abrem o porta-malas com o som mais cafona possível. Penso: por que os que ouvem música alta não tocam Chet Baker? A cafonice é proporcional à ignorância e à violência.
A cabeceira insular da Ponte e aquela pracinha art-dèco preservada no seu tempo, no seu próprio abandono.
O aterro da Baía Sul, com seu garajão de ônibus, seus camelódromos, suas esquizofrênicas arquiteturas, seu merdário que chega a ser poético pela sua patética existência, e porque é uma prova de que os políticos e construtores decididamente odeiam a cidade.
As fotografias dos anos 50, porque provam que um dia houve Desterro.
A memória do Lugar Comum, minha melhor formação.
O silêncio do Centro nos feriados e domingos, e os sabiás que insistem em entrar pela janela lateral.
As mulheres mais bonitas do mundo, em quantidade, variedade, e porque elas andam de ônibus, trabalham nos caixas de supermercados, nos balcões das lojas, na feira, e mandam beijos suaves e azuis.
A indisfarçável breguice que seus habitantes encarnam.
Passar sob a Ponte Hercílio Luz, na parte continental, e imaginar quais histórias guardam aquele casarão quase caindo.
Ver uma ponte da outra e imaginar que, apesar de não parecer, vivo numa ilha.
O camarão à milanesa no canal da Barra; os livros usados do Lima na frente da Catedral; a beleza oculta dos pretos; a igreja da Nossa Senhora do Rosário; a livraria do Daniel; a comida honesta do Alcindo e o simpático mau-humor do Beto; a dobradinha do bar do Paulinho, onde encontro o Olsen todas as quartas-feiras; os que frequentam o Blues Velvet.
A certeza de que cada um dos meus 10 leitores terá sua lista íntima e pessoal da sua Desterro.
Diário Catarinense, 7 de fevereiro de 2009
31 de janeiro de 2009
O que eles leem?
Nesta semana, o prefeito Dário Berger enviou à Camara de Vereadores da Capital, em sessão extraordinária, projetos que modificam a estrutura administrativa do município. Um dos pontos da reforma vincula a gestão pública da cultura, através da Fundação Franklin Cascaes, a um tipo de supersecretaria que engloba também turismo e esporte.
Se o prefeito e os vereadores que aprovaram o projeto (temporariamente anulado pela justiça) fossem mais ao cinema, frequentassem mais livrarias, visitassem mais exposições, fossem mais ao teatro, enfim, conhecessem a produção cultural da cidade, saberiam que a ideia de juntar cultura, esporte e turismo é extemporânea e absurda.
A Franklin Cascaes tem facilidades de captação de recursos (por ser fundação) que a secretaria por si não dispõe, porque a dotação da secretaria está vinculada ao orçamento geral do município. O problema é que políticos têm pavor da palavra cultura, e, é óbvio, que usarão toda a estrutura da Franklin apenas com a finalidade de obter recursos para projetos de turismo. Afinal, que outro interesse teriam?
O senhor Mário Cavalazzi foi tão infeliz na ideia da junção quanto no modo de expressar a justificativa pela urgência de sua aprovação. Ele disse que primeiro aprovaria a proposta e depois conversaria com os produtores. Ué? Sempre me pareceu que a democracia acontecesse justamente pela ação oposta. Primeiro conversa, ouve, debate, e só depois propõe o consenso. Mas é claro que pessoas que não têm intimidade com arte e cultura não teriam também nenhuma habilidade em debater.
De qualquer modo, não dá para esquecer que o prefeito, na sua primeira gestão, havia prometido a criação de um fundo municipal de cultura, o lançamento de editais públicos para a área e a criação de um programa municipal de cultura. Isso nunca aconteceu e, pelo seu jeito bronco de ser, jamais acontecerá, porque precisaria conversar muito com os produtores para chegar a um projeto inteligente.
Mais do que a vontade do secretário e do prefeito em ignorar os produtores e artistas, me espantou também a adesão em massa dos vereadores na aprovação do projeto. Sinal inequívoco de que nem mesmo o que eles aprovam eles leem.
Diário Catarinense, 31 de janeiro de 2009
24 de janeiro de 2009
O Inventalínguas
Roland Barthes, numa das suas magistrais aulas (essa, especificamente, chamou de Leçon), comenta sobre a língua como prisão. Ele diz que ao nascermos as coisas já tem nomes. Não somos nós, neófitos na língua, que batizamos os objetos ou os sentimentos. Objetos talvez tenham sido mais fáceis de nomear. Mas sentimentos? Estes são tão difíceis que até hoje muita gente discute suas semânticas. São capazes de dizer: “amor pra mim é isso, paixão pra mim é aquilo”. Não há uma ideia precisa do que chamamos o que sentimos, ao contrário das coisas. Mesa é mesa, cadeira é cadeira, estão lá, associados, unha e carne. Se alguém disse: coloque a maçã sobre a mesa, pouca dúvida haverá sobre a ordem. Porém, se disser eu amo fulana” será possível ser coberto de questões do tipo: “mas é amor de verdade?”, “que tipo de amor”?
Em algum instante do mundo, como no próprio primeiro instante, alguém teve a felicidade de dar nome às coisas. O sujeito estava lá, olhando pro céu e pensou: céu. Dali por diante, todos sabem que céu é aquilo. O único lugar, segundo Barthes, onde é possível trapacear essa prisão, é na literatura. Podemos chamar mesa de “plunt” e o leitor que goste ou não. Literatura não é agrado, a literatura não existe para explicar, a literatura não é jornalismo nem tese, nem ensaio. A literatura é lugar onde podemos mandar às favas os acordos ortográficos feitos nos gabinetes. Se o povo é o inventalíngua, como disse o poeta Maiakovski, por que não ouviram a voz das ruas para dar sentido à nova ortografia? Se apenas 11% dos brasileiros sabem ler e compreender o que estão lendo, e ainda assim numa confusão ortográfica que vai do poético ao risível, o que será agora? Levamos anos brigando com os hífens, os acentos, as crases, e agora teremos que reaprender a língua?
Melhor é voltar à literatura, fazer como João Ubaldo e Saramago que se julgaram velhos para reaprender a escrever. Do mesmo modo, na literatura, trapacearei a língua e continuarei a colocar as tremas e o acento na palavra ideia. Infeliz do sujeito que ideia tirou-lhe o traço que dá plasticidade a uma coisa tão sem valor ultimamente: as ideias. Portugueses, brasileiros, chineses, caboverdianos, timorenses, moçambicanos, angolanos continuarão com seus modos de falar, por sorte, porque se alguma coisa ainda me comove nesse mundo é justamente a diversidade.
Diário Catarinense, 24 de janeiro de 2009
31 de dezembro de 2008
A primeira coisa que eu descobri sobre o Bruggemann, quando trocamos o primeiro e-mail – e lá se vão uns quatro anos – é que ele detesta que escrevam seu sobrenome errado. Depois nos aproximamos um pouco, fui convidado para participar de um torneio com ares meio secretos, em sua casa, e então descobri algo que pouca gente sabe: Bruggemann é um ilustre jogador de futebol de botão. Com exceção do poeta Dennis Radunz – que recompensava seu futebol duvidoso com trocadilhos cada vez mais bêbados – todos os atletas eram competitivos e os torneios de futebol de botão se tornavam tradição e, finalmente, Bruggemann reinava absoluto no tosco ranking de pontuação que logo improvisamos no primeiro guardanapo.Mas a intimidade vai revelando fatos incríveis e foi quando, em uma festa de amigos, conheci Luna Bruggemann, sua filha – de quem, aliás, o pai morre de ciúmes, embora não admita inteiramente (em tempo: que se cuidem os mancebos galantes da ilha porque, embora seja muito amistoso, o cronista em questão tem quase dois metros de altura) – então neste dia o mais inesperado aconteceu. Estávamos discutindo o grande cinema europeu, e discutíamos calorosamente, e Bruggemann defendia as posturas mais radicais quando Luna, com sua ingenuidade incauta, disparou a revelação que ninguém esperava:“Mas, pai – e um silêncio – você já chorou comigo no cinema.”O homem por detrás da fumaça que emana de sua coleção de cachimbos – e me perdoe estas descrições meio baratas, leitora exigente, mas você terá que conviver com elas durante algumas semanas, pois o cronista titular já saiu de férias – o homem é um sentimental. O nome do filme fica por conta da imaginação de cada um; não direi a troco de nada – e crônica também não é lugar de fofoca, e sim exercício sério de reflexão. Mas a confissão de Bruggemann – afinal, tudo já estava perdido – a confissão vai de graça, e colocada no lugar mais nobre deste texto, como modo de sincera homenagem:“Sim, meus amigos, choro até em foguetórios de fim de ano, almoços de natal, despedidas de solteiro. Sou um grande sentimental.”
Victor da Rosa, Diário Catarinense, 27 de janeiro de 2008.
20 de dezembro de 2008
Dois sapatos para George W. Bush
Apesar de não gostar nem um pouco do criminoso de guerra George W. Bush, eu não jogaria um sapato nele. Mas adorei o gesto simbólico, ainda que pueril (mas não são as crianças os seres mais sinceros?) do jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi que, antes de ficar descalço, disse: “Isso é um beijo de despedida, seu cachorro”. Pena que errou.
Jogar os sapatos ainda vá lá, até porque é uma ofensa gravíssima levar uma sapatada no Iraque. Mas chamar o presidente norte-americano de cachorro é uma ofensa aos caninos, seres incapazes de fazer as sacanagens que fez Bush filho com os iraquianos e com seu próprio povo. Esse episódio só faz pensar numa pergunta à qual nunca consegui resposta satisfatória: por que o mundo é sempre governado por imbecis?
Tudo bem que os norte-americanos poderiam ter sido enganados na primeira eleição. Mas o mais incrível é que o o cara foi reeleito. Está provado porque os políticos fogem da palavra educação, porque jamais um povo culto elegeria George W. Bush. Como disse Caetano Veloso: “Se você vir um deputado em pânico mal dissimulado, diante de qualquer, mas qualquer mesmo, plano de educação que pareça fácil, pense no Haiti”.
Muitas perguntas ainda podem ser feitas diante da imbecilidade da maioria dos políticos. Por que tem eleições no Brasil a cada dois anos, se até o cachorro da esquina sabe que seria muito menos oneroso juntar todas num mesmo ano? Por que o Senado aumentou as vagas para vereador, se todos sabem que se gasta horrores com estes caras? Por que a justiça demora tanto para julgar governadores suspeitos de crime eleitoral? Como a sociedade será ressarcida dos anos em que estes mesmos governos ocuparam ilegalmente o poder no caso de serem cassados? Por que os deputados ainda mantém um crucifixo acima da mesa diretora da casa se a Constituição diz que o Estado é laico?
Como já fiz perguntas demais nesse ano, dou um descanso aos meus 10 leitores por um mês. Até 2009.
Diário Catarinense, 20 de dezembro de 2008
13 de dezembro de 2008
O nome de batismo é Estefânia, como sua mãe a chama, mas ela insiste em dizer que é Stephanie e em ler minha mão. Não creio em oráculos, previsões, destino, e não deixaria minha mão nas mãos de uma cigana com nome atípico para ciganas. Mas o carinho com que ela me abordou, os lábios grossos, os olhos rasgados e escuros, essa mistura de sedução e tentativa de me dizer que meu futuro estava em minhas mãos me prenderam.
São três linhas, ela explicou, numa síntese quase insossa da vida. A do amor, a do dinheiro e a da vida. Só isso, eu perguntei? Minha vida se resume a três questões? E o que somos, de onde viemos, para onde vamos?, isso não conta? As linhas pelo menos são mutáveis? Ela disse que não, está escrito ali e tá acabado.
A primeira, a do dinheiro, diz que sua vida é estável. Você nunca será rico, mas também nunca passará por necessidades. A segunda, a do amor, é um caos. Tem tanta linha aqui, que chego a ter pena de você, ela disse. Mas daqui a pouco, tá vendo essa linha aqui, que quase dobra à outra parte da mão? Ela é a companhia que irá até o fim da sua vida. É uma mulher inteligente, doce, jovem, e que te adora. Você demorou a encontrá-la, mas terá uma vida feliz e estável ao lado dela. Depois suspirou muito fundo e disse: “Quem dera fosse eu, que sou tão sozinha”.
Antes que eu tentasse assimilar a idéia de que uma cigana seria essa pessoa, ou de que eu precisasse mesmo ter alguém que me acompanhe, numa mistura de sonho, delírio, confusão mental, acreditando que Estefânia tinha um poder quase absurdo, seja para prever, seja para desejar, seja para seduzir, antes que eu caísse na tentação de beijar seu lábio carnudo que me oferecia, perguntei sobre a linha da vida.
Você viverá o suficiente, ela disse. O que é suficiente, eu perguntei? , mas ela não respondeu. Disse apenas que, por tradição, eu teria que lhe dar uma moeda. Cobro muito mais, mas eu gostei de você, ela disse. Eu dei a moeda, ela largou da minha mão e logo pegou a de outro homem que passava, o seduziu do mesmo modo, com a mesma malícia. Por instantes ele será feliz e deixará ser enganado, num ciclo quase natural do desejo, do mesmo modo como eu fui.
6 de dezembro de 2008
Aniversário e lançamentosHoje a editora Letras Contemporâneas comemora 15 anos de sua fundação e lança dois livros: Como viver sem perguntar?, deste blogueiro, e Relatos de um corvo sedutor, de Péricles Prade. Será na sede da Fundação Cultural Badesc, na Visconde de Ouro Preto, 216, à partir das 19 horas. Estão todos convidados.
O banco redondo
Pouca gente deve saber onde fica a Praça Etelvina da Luz, mas quase todos já ouviram falar do famoso Banco Redondo. Quando cheguei por aqui, no início dos anos de 1980, não era a Ponte Hercílio Luz (visível à distância) que me davam como referência. Cada vez que eu perguntava onde era tal lugar, a primeira frase era: "Não tem o Banco Redondo?". Levei um tempo a encontrá-lo, porque imaginava se tratar de uma instituição financeira cuja arquitetura fosse efetivamente arredondada.
Mas não, o Banco Redondo é apenas um banco redondo mesmo, num minúsculo e triangular espaço público, a tal Praça Etelvina da Luz, com um flamboyant no meio e uma mesa de xadrez ao lado, cercado pelas barulhentas Mauro Ramos e Altamiro Guimarães. Seu tamanho reduzido, porém, não lhe tira a importância. Palco de protestos, namoro, debates, tiroteios, teses, o Banco Redondo, com seus 15 metros quadrados, resistiu a todas as pressões imobiliárias. Dizem até que para obter o "Mané card" é imprescindível saber de sua localização.
Casas lindas e históricas foram derrubadas em seu entorno, como a da família de Haro ou a ex-sede do jornal A Notícia, na Altamiro Guimarães, de onde eu enviava, via telex ainda, as colunas semanais para Joinville. Acabaram com o Campo da Liga e, no seu lugar, construíram um enorme centro de compras. Mas o Banco Redondo continua lá, resistindo, cercado por um sobrado no qual eu sempre quis morar (e temo pelo seu destino, por causa dessa espécie de predileção quase sádica pela destruição de patrimônios históricos), por um boteco onde os vizinhos fazem seus habituais churrascos de final de semana e por uma loja que vende produtos eróticos.
Para uma ilha que se pretende turística, ter o Banco Redondo como referência de patrimônio cultural é de uma comoção sem precedentes. É uma ode ao mínimo, e que só resiste porque é pequeno demais para a construção de um prédio. Eu e o Jorginho, que nasceu e se criou na Ilha, e que me cantou essa letra, combinamos de visitá-lo qualquer dia destes. Sentaremos no seu batido concreto, carunchado de gás carbônico, e, na pouca sombra do velho flamboyant, admiraremos a destruição gradativa e lenta da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros.
SOBRE O ÓDIO
a cena mais emblemática da insanidade coletiva causada não pelo vírus, mas pelo mentecapto presidente, é a do governador ronaldo caiado, de...
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